Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

E assim começa o belo livro do pintor Nadir Afonso:

 

Sob as mais variadas formas, esta minha tendência para a lucubração é de família.

Meu pai padecia de doença nervosa e uma simples falta de lembrança perturbava-lhe o sono. Não raras vezes me interpelava na noite com perguntas destas " Como se chamava a tia de Montalegre?" E eu respondia: " Ricardina". Isto poderá parecer absurdo e fútil a quem está de fora; no entanto, só após o esclarecimento, o desassossego do meu pai cessava.

Quem sai aos seus não degenera: recebi por sucessão algumas preocupações e crises congéneres.

- Mas o que tem a tia de Montalegre a ver com o Universo?

Tem muito que ver; as mesmas inquietações nos levam a procurar respostas. Meu pai lia Flammarion. As mais avançadas teorias sobre o cosmos não tinham chegado à nossa terra natal, e, segundo aquele astrónomo, a trajectória rectilínea dum projéctil lançado no espaço seria eterna e infinita. Esta concepção dos céus criava em mim fortes perturbações-

- Só se incomoda com estas coisas quem quer.

Certo, mas melhor seria dizer que só não se incomoda com estas coisas quem pode.

Não temos necessidade de conhecer a Geometria do Universo nem o nome da tia de Montalegre, mas temos necessidade de dormir. Não me meto no trabalho dos grandes da ciência; não sou versado em filosofia, nem uma só preocupação que a outros importe me identifica como escritor: o Universo é que se mete comigo, e se me interrogo sobre ele, é para tranquilizar em mim uma opressiva carência de compreensão.

(...)

 

 

Nadir Afonso (2010), Universo e Pensamento, Afrontamento, p.5



publicado por omeuinstante às 10:08 | link do post

6 comentários:
De Laura Afonso a 9 de Fevereiro de 2011 às 15:00
Olá Céu,

O Universo, a Arte e a Matemática são sedutores. Nadir dá-lhes outra dimensão. Aparece foi muito bom ver-te depois de tantos anos. Bj Laura


De omeuinstante a 9 de Fevereiro de 2011 às 18:31
Olá, Laura,

As palavras do Nadir têm sido uma provocação. Estou a gostar muito.
Foi muito bom ver-te, sim, senti que " o tempo não existe". Bjs


De Manuel Carlos a 9 de Fevereiro de 2011 às 23:00
O Universo é que se mete connosco!
E eu que tenho a infelicidade e a angústia de saber notícias de uma série de tias Ricardinas que, se calhar, nem minhas tias são!?
A curiosidade é um vício terrível mas, felizmente, estimulante!


De omeuinstante a 10 de Fevereiro de 2011 às 18:06
E eu que vivo numa incessante inquietação por notícias de Montalegre, ando, permanentemente, espantada com tanto Universo!


De Manuel Carlos a 10 de Fevereiro de 2011 às 23:11
Esqueci-me de dizer que o Flammarion encheu de mistério e de aventura a minha juventude. E o espanto foi de tal ordem que a Astronomia tomou conta das minhas horas vagas durante vários anos da minha vida adulta.
E como era bom viajar nesse espaço de sonho, a largos anos-luz da tremenda chatice do dia-a-dia!!!


De omeuinstante a 10 de Fevereiro de 2011 às 23:59
Algo de semelhante se passou comigo. Uma das minhas paixões. Ainda agora, de quando em quando, faço visitas às estrelas na companhia de amigos sabedores destas matérias do Universo.
O quotidiano é difícil, mas reside nele o segredo para a alegria.
" Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acusa-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. R. M. Rilke. O Manuel Carlos, filósofo- do-olhar, tem poesia suficiente para o enriquecer.


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