Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

O filme A Árvore da Vida, de Terrence Malick, transporta-nos através dos olhos de Jack, da sociedade e da natureza, até ao fim-início do Tempo, onde se guardam os segredos das Origens e o significado da Vida.
Pela força dum movimento generativo, Malick cria a realidade no seu todo e, nós, que dela fazemos parte, pela participação e presença, vamos emergir deste vórtice.
Um filme com várias camadas, onde a analogia é o laço que prende as diversas pontas de sentido. Do Microcosmos Humano ao Todo Macrocósmico do Universo somos confrontados com a Substância, simultaneamente imanente e transcendente a todas as coisas. Começa, aqui, o necessário renascimento espiritual do homem- sem figuras de estilo, nem expressão meramente simbólica- num apelo à urgência da sua transformação absolutamente essencial, ontológica. É, também, o princípio de um questionamento profundo: Porquê o Universo e não o Nada? Entramos no Símbolo como casa do Ser e da Verdade. Ainda, nesta radicalidade, sobressai a consciência do homem e a sua interdependência com o Todo existente e, fica a convicção de Malick, da possibilidade do homem renascer usando as suas potencialidades naturais; vislumbre da consciência como Unidade Cósmica e como Simpatia Universal.
Para Malick, a Árvore da Vida -O Grande Carvalho- está em cada ser infinitesimamente grande, de matéria e espírito, capaz de, por si,  caminhar até às estrelas em Absoluta Unidade com o Todo.
Um filme poético, inspirador, mas levemente frustrante. 

 

 



 



publicado por omeuinstante às 16:44 | link do post

6 comentários:
De OD a 13 de Junho de 2011 às 18:28
Porquê frustrante? Parece ter todas as qualidades de um grande filme.


De Vasco Tomás a 13 de Junho de 2011 às 19:27
Embora sem conhecer obra e autor, várias marcas do teu comentário deixam transparecer que o filme é sobretudo uma interrogação de carácter antropológico, onde o sentido do homem deve ser pensado na articulação da imanência com a transcendência. Contudo, o princípio da analogia em que se funda esta articulação tem no âmbito do pensamento actual uma operacionalidade hermenêutica discutível, como Foucault mostrou n' As Palavras e as Coisas.
Contudo, aqui fica outro comentário:
Uma família texana dos anos 50. A morte de um filho de 19 anos, possivelmente na Guerra do Vietname. E a urgência desesperada de obter uma explicação, uma justificação.
O Livro de Job, do Velho Testamento, Deus que tudo dá e tudo tira, a origem do Universo, da vida, o movimento incessante de todas as coisas, a transformação implacável, a família, o nascimento dos filhos, a renovação - o mistério da vida e a morte! Malick confronta-nos com a dor do crescimento, a «guerra» dos afetos no seio de uma família, a violência dos estereótipos da educação, o sofrimento que os seres humanos que se amam causam uns aos outros quer por pulsões primárias, quer por convenções sociais irrisórias.
Para quê a rigidez, a dureza com que as pessoas se organizam em sociedades, nas famílias? A fragilidade de todas as coisas do Universo e da vida é irremediável!
O Livro de Job lidera as interrogações do filme.E o século XXI tem mostrado a profundidade e a verdade dessas palavras. A humildade perante a vida e o Universo deve ser a atitude, o posicionamento do ser humano - essa é a religiosidade a que o filme nos convida e que acaba por nos impregnar. -


De LuisF a 13 de Junho de 2011 às 23:07
Absolutamente de acordo. Imprescindível... Imagens que perduram em sensações sem tempo. Será que o tempo existe?


De omeuinstante a 25 de Junho de 2011 às 16:50
Podemos escavar nos mitos, na filosofia, na ciência...podemos ficar pela arte?
Da leitura do livro de Nadir Afonso, O Tempo Não Existe, sobrou-me que o tempo não possui entidade em si, ele é relação entre movimento dos corpos concretos e o espaço concreto por eles percorrido. Para o Mestre Nadir, o tempo não existe, é uma ilusão, o que existe é Energia como propriedade inata da Lei Universal. Mas isto é a intuição de um Artista e claro, "o essencial, em arte, não é racionável".


De Francisco a 14 de Junho de 2011 às 00:52
Bela interpretação, Mceu. Gostei muito do filme, ainda assim, o final deixou-me um travo amargo.


De Cláudia a 14 de Junho de 2011 às 17:51
Inquietantes interpretações, embora o tema seja de uma polidez desafiadora.


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