Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

Sófocles, poeta trágico grego (496 - 406 a.C) , traduz nas suas obras uma profunda reflexão sobre a condição humana eternizada através das suas personagens. Penso em Antígona, revisitando o belo poema escrito há mais de vinte e cinco séculos e, no entanto, com uma mensagem intensamente actual. Fala-nos de questões existenciais, daquelas que questionam o sentido da vida num horizonte de finitude e temporalidade. Uma personagem e um poema que se colam ao Ser.

 

De entre as muitas maravilhas do mundo, nenhuma

É comparável ao Homem.
Percorre o mar encrespado pelo vento sul,

Cruza o abismo bramante das vagas,

Atormenta a Mãe dos deuses, a Terra Soberana,

A Imortal, a Inesgotável,
Ano após ano a revolve 
Rasgando sulcos ao ritmo lento das suas mulas.

Os animais emplumados e ligeiros,
As feras selvagens e os habitantes do mar,

A todos captura nas malhas das suas redes,

Este inventor de manhas e ardis!
Atrai às suas armadilhas a caça grossa dos montes,
subjuga e doma o dorso áspero do corcel,

Põe canga no poderoso touro dos montes.
Inventou a palavra, o ágil pensamento,

As leis e os costumes,

Aprendeu a abrigar-se dos grandes frios e das chuvas.
Génio universal que nada surpreende,

Só da morte não ilude a hora certa,

Ainda que por vezes tenha sabido retardá-la.
Senhor de uma inteligência assaz fecunda,

É seduzido tanto pelo bem como pelo mal,

Combinando a justiça eterna e as leis da Terra.
Mesmo o mais poderoso governante é banido da cidade
Se, na sua criminosa audácia, se insurge contra a lei.
Esse, perverso, não terá jamais lugar
Nem no meu lar, nem no meu coração.

 

 



publicado por omeuinstante às 18:36 | link do post

2 comentários:
De OD a 8 de Setembro de 2011 às 21:38
"Mesmo o mais poderoso governante é banido da cidade". Pouco actual nalguns versos...


De omeuinstante a 8 de Setembro de 2011 às 22:08
Actualiza-se sempre, OD, no espaço e no tempo. Nem sempre ocorre com a brevidade que almejamos.


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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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