Domingo, 15 de Abril de 2012

Um dia, pelo sol poente, alcançaram os arrabaldes da cidade imperial, e Ling procurou uma estalagem onde Wang-Fô passasse a noite. O velho embrulhou-se nuns trapos e Ling deitou-se colado a ele para o aquecer, pois a Primavera mal rompera e o chão de terra batida estava ainda gelado. Pela madrugada, ecoaram pesados passos nos corredores da pousada; ouviram-se os aterrados sussurros do hospedeiro e ordens vociferadas numa língua bárbara. Ling estremeceu, lembrando-se que na véspera roubara um pastel de arroz para a refeição do mestre. Sem duvidar de que vinham para o prender, perguntou-se quem ajudaria Wang-Fô a atravessar a vau o próximo rio.

Entraram soldados com lanternas. Filtrada pelo papel sarapintado, a chama lançava-lhes clarões vermelhos ou azuis nos capacetes de couro. Vibrava-lhes ao ombro a corda de um arco e os mais ferozes atiravam súbitos rugidos descabidos. Assentaram pesadamente a mão na nuca de Wang-Fô, que não pôde deixar de reparar que as mangas das suas vestes não condiziam com a cor do manto.

Amparado pelo seu discípulo, Wang-Fô acompanhou os soldados tropeçando por caminhos acidentados. Aos magotes, o populacho troçava daqueles dois criminosos que levavam certamente a decapitar. A todas as perguntas de Wang, os soldados respondiam com um esgar selvagem. As suas mãos agrilhoadas sofriam, e Ling, desesperado, olhava o mestre, sorrindo, o que, para ele, era uma maneira mais terna de chorar.

Chegaram à entrada do palácio imperial, cujos muros cor de violeta se erguiam em pleno dia como uma faixa de crepúsculo. Os soldados conduziram Wang-Fô através de um sem-fim de salas quadradas ou circulares cuja forma simbolizava as estações, os pontos cardeais, o macho e a fêmea, a longevidade, as prerrogativas do poder. As portas giravam sobre si mesmas soltando uma nota de música, e a sua disposição era tal que se percorria toda a gama atravessando o palácio de nascente para poente. Tudo se concertava para dar a ideia de um poderio e de uma subtileza sobre-humanos, e sentia-se que as mínimas ordens aqui pronunciadas haviam de ser definitivas e terríveis como a sabedoria dos antepassados.

Até que o ar se rarefez; tão profundo se tornou o silêncio que nem sequer um supliciado se atreveria a gritar. Um eunuco arredou um cortinado; os soldados tremeram como mulheres, e aquele pequeno exército entrou na sala donde dominava o Filho do Céu.

Era uma sala desprovida de paredes, sustentada por sólidas colunas de pedra azul. Para além dos fustes de mármore desabrochava um jardim, e cada flor contida no arvoredo pertencia a alguma espécie rara trazida de além-mar. Mas nenhuma delas tinha perfume, não fosse a doçura dos aromas alterar a meditação do Dragão Celeste. Por respeito ao silêncio em que mergulhavam os seus pensamentos, nenhuma ave fora admitida no interior do recinto e até as abelhas haviam sido escorraçadas. Um muro altíssimo separava o jardim do resto do mundo, para que o vento, que sopra sobre os cães mortos e os cadáveres dos campos de batalha, se não permitisse aflorar a manga do Imperador.



publicado por omeuinstante às 10:11 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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