Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012

Herberto Helder, 82 anos de vida. Homenagem ao Poeta. 
 

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

 

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

 

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

 

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.




publicado por omeuinstante às 00:18 | link do post

1 comentário:
De Francisco a 23 de Novembro de 2012 às 21:57
Também ao homem:)


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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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