Quinta-feira, 26 de Maio de 2016

 
Sob um grande céu pardacento, muma grande planície arenosa, sem caminhos, sem verdura, sem um cardo, sem uma urtiga, encontrei alguns homens que caminhavam curvados.

Cada um deles levava às costas uma enorme Quimera, tão pesada como um saco de farinha, ou de carvão, ou como o equipamento dum soldado romano de infantaria.

Mas a fera monstruosa não era só um peso inerte; pelo contrário, envolvia e oprimia o homem com os seus músculos elásticos e poderosos: agarrava-se, com duas grandes garras, ao peito da sua montadura; e a cabeça fabulosa encimava o frontal do homem, como um daqueles horríveis capacetes com que os antigos guerreiros esperavam aumentar o pavor do inimigo.

Interroguei um desses homens, e quis saber para onde iam assim. Respondeu-me que nada sabia, nem ele, nem os outros; mas que, evidentemente, iam para qualquer parte, pois que eram impelidos por um impulso invencível de caminhar.

Charles Baudelaire, O Spleen de Paris - Pequenos Poemas em Prosa (1991, pág 21), Tradução de António Pinheiro de Guimarães, Relógio d´Água.



publicado por omeuinstante às 17:30 | link do post

8 comentários:
De m.rita a 4 de Julho de 2010 às 20:21
"impelidos por um impulso invencível de caminhar". É mesmo isto que é viver.


De omeuinstante a 4 de Julho de 2010 às 20:31

É isso mesmo. Viver. Citando K. Jaspers " filosofar é estar a caminho" e como filosofar é viver, está tudo dito.
Mas caminhar com alegria!


De Olga a 5 de Julho de 2010 às 00:27
E "Em todos aqueles rostos fatigados e sérios não havia nenhum sinal de desespero; sob a cúpula spleenética do céu, com os pés mergulhados na poeira dum solo tão desolado como esse mesmo céu, eles iam caminhando com a fisionomia resignada daqueles que estão condenados a esperar sempre." (idem, pág. 22)
Sinto-me tentada a relacionar este texto de Baudelaire com a temática mítica que ontem sugeriste: esta atitude de resignação, de não- consciência do caminho, do sem-sentido da viagem, trouxe-me à presença o destino de Sísifo; mas, " a fisionomia resignada daqueles que estão condenados a esperar sempre" não poderá ser também a fisionomia dos prisioneiros da caverna platónica?
Caminhemos, mas com intenção e sentido...


De KB a 5 de Julho de 2010 às 00:50
... e se me permitem com a primeira proposta de Italo Calvino para o milénio que agora se iniciou.

esta flor foi o que melhor encontrei nos símbolos para representar a leveza; poderia ter sido o e nunca a


De omeuinstante a 5 de Julho de 2010 às 23:12

K.B
Pode oferecer sempre flores. O mesmo com as estrelas.
Gosto. O terceiro símbolo não sei se chego lá: máquinas...engrenagem? Não sei que lhe diga.
Quanto à leveza é um princípio que levo a sério.
Por aqui há gente bem disposta e que gosta de pensar.
Se nos quiser acompanhar, volte.


De omeuinstante a 6 de Julho de 2010 às 17:05
Olga:
Também gostas de ler Baudelaire. E de Rilke com toda a certeza. Estou a reler " Cartas a um jovem poeta".
Um dia destes volto a este poeta que tinha como fronteira de pensamento a própria poesia.

" De momento viva apenas as suas interrogações. Talvez que, simplesmente vivendo-as, acabe um dia por penetrar insensivelmente nas respostas". R. M. Rilke, Cartas a um jovem poeta (1994), Contexto, pág 41


De Anónimo a 5 de Julho de 2010 às 01:11
O próprio Charles Chaplin afirmou que A Quimera do Ouro, é "o filme pelo qual gostaria de ser recorda


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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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