Segunda-feira, 13.02.12

Bernardo Soares, Livro do Desassossego:

Não vejo, sem pensar.



publicado por omeuinstante às 10:53 | link do post

Domingo, 12.02.12

 A sociedade humana necessita de paz, mas necessita igualmente de conflitos sérios e de ideais: de valores, de ideias pelos quais possamos lutar. Na sociedade ocidental aprendemos- e aprendemos com os gregos- que é possível fazê-lo não tanto com a espada, mas muito melhor e mais persistentemente com palavras. E, sobretudo, com argumentos razoáveis.

Uma sociedade perfeita é, por conseguinte, impossível. Existem, porém, ordens sociais melhores e piores. A nossa civilização ocidental decidiu-se a favor da democracia, como uma forma de sociedade que pode ser alterada pela palavra e, aqui e ali- se bem que raramente- por argumentos racionais, por uma crítica racional, isto é, realista- através de reflexões críticas não-pessoais, características também da ciência, designadamente da ciência da natureza, desde os gregos. Sou, pois, um defensor da civilização ocidental, da ciência e da democracia. Elas dão-nos a oportunidade de prevenir o infortúnio evitável e de experimentar, de apreciar criticamente e, se necessário, aperfeiçoar as reformas (...). E confesso-me igualmente partidário da ciência, hoje tantas vezes caluniada, que busca a verdade através da auto-crítica e que, a cada nova descoberta, descobre de novo quão pouco nós sabemos- quão infinitamente grande é a nossa ignorância e falibilidade. Foram intelectualmente humildes. (...).


Karl Popper, Em Busca de Um Mundo Melhor



publicado por omeuinstante às 19:15 | link do post

Terça-feira, 07.02.12

aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão Ferreira, À Guitarra e à Viola
(1954-1960)



publicado por omeuinstante às 17:21 | link do post

Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem.
Sartre



publicado por omeuinstante às 10:20 | link do post

Domingo, 05.02.12

...No fim tu hás- de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro de poemas, o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

 Mário Quintana



publicado por omeuinstante às 17:20 | link do post

 

A cultura é a soma de todas as formas de arte, amor e pensamento que, ao longo dos séculos, permitiram ao homem ser menos escravizado.

 

Malraux


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publicado por omeuinstante às 16:50 | link do post

Sexta-feira, 03.02.12

Liberdade 

é também vontade.

Benditas roseiras

que em vez de rosa

dão nuvens e bandeiras.

 

José Gomes Ferreira, Poesia III, Portugália, p. 111 



publicado por omeuinstante às 13:53 | link do post

Quinta-feira, 02.02.12

Em dia de espera da vaga de frio, recordo-me de ter lido que na língua francesa chauffeur significa aquecedor. A confirmação é feita consultando o Dicionário da Origem das Palavras de Orlando Neves. No tempo dos comboios a vapor, chauffeur era o fogueiro que lançava o carvão na fornalha. Perdurou e tornou-se o condutor da composição. A palavra aportuguesou-se e, já dicionarizada, significa chofer, aquele que conduz qualquer veículo motorizado. Diz bem Barthes: somos, ao mesmo tempo, donos e escravos da linguagem.



publicado por omeuinstante às 19:00 | link do post

Quarta-feira, 01.02.12

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.


Vinícius de Moraes



publicado por omeuinstante às 09:00 | link do post

Terça-feira, 31.01.12

Tolerância deriva do latim tolerare e significa suportar. Tolerar é, assim, permitir comportamentos com os quais não estamos de acordo. Logo, a discordância é um requisito da tolerância.Tolerar é reconhecer ao Outro o direito de pensar e agir de modo diferente. Contudo, não significa que aceitemos o relativismo moral em toda a sua extensão. A universalidade da Carta dos Direitos Humanos continua a ser a referência balizadora duma sociedade justa. Há valores inegociáveis.



publicado por omeuinstante às 16:06 | link do post

Sábado, 28.01.12

O dizer poético, expressionista, do austríaco Georg Trakl (1887-1914), lembra as fúrias de Orfeu. Um poeta da noite, da solidão e das imagens quase cinematográficas, que acompanho no crepúsculo deste inverno solarengo.

 

Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede.

No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre comove o vôo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.

De novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.

 

 



publicado por omeuinstante às 18:32 | link do post

Sexta-feira, 27.01.12

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê passar o silêncio

Navegação antiquíssima e solene


Sophia Mello Breyner Andresen




publicado por omeuinstante às 13:00 | link do post

A Revista Portuguesa de Filosofia, tomo 66-Fasc4, 2010, inclui um artigo Sobre a Mente Consciente na Natureza de Samuel Butler, apresentado por Manuel Curado. No resumo pode ler-se que Butler foi um dos primeiros autores a compreender que o evolucionismo de Darwin precisa de ser completado com uma reflexão sobre a evolução das máquinas. O estudo paralelo salienta a dificuldade da abordagem do campo de estudo da evolução da mente senciente. O artigo conjectura a favor de uma noção de mente alargada: se existe uma evolução paralela de autómatos e de seres orgânicos desde o inicío da vida na Terra e se os organismos biológicos evoluem lado a lado com próteses mecânicas e é previsível que existam no futuro formas de simbiose entre humanos e máquinas, segue-se que a mente humana deverá ser entendida num sentido mais alargado do que o habitual.
Darei conta por aqui da leitura deste artigo fascinante.



publicado por omeuinstante às 09:00 | link do post

Terça-feira, 24.01.12

Se me vem tanta glória só de olhar-te,

Se pena desigual deixar de ver-te;

Se presumo com obras merecer-te,

Grão paga de um engano é desejar-te.

 

Se aspiro por quem és a celebrar-te,

Sei certo por quem sou que hei-de ofender-te;

Se mal me quero a mim por bem querer-te,

Que prémio querer posso mais que amar-te?

 

Porque um tão raro amor não me socorre?

Ó humano tesouro! Ó doce glória!

Ditoso quem à morte por ti corre!

 

Sempre escrita estarás nesta memória;

E esta alma viverá, pois por ti morre,

Porque ao fim da batalha é a vitória.

 

Luís de Camões

 


publicado por omeuinstante às 20:16 | link do post

Domingo, 22.01.12

A propósito das declarações inscientes de Cavaco Silva:

 

Cabe a cada um assumir por sua conta e risco a sua linguagem, pela procura da palavra adequada. À ontologia objectiva ou sociológica da fala deve substituir-se uma ontologia pessoal. O discurso não é mais do que um testemunho do ser, pelo que cabe a cada um fazer com que esse testemunho seja autêntico.

(...) O sentido último da palavra é de ordem moral.
 
Georges Gusdorf, A Palavra, Ed 70, p. 43



publicado por omeuinstante às 22:59 | link do post

Sexta-feira, 20.01.12

Porque o Homem faz-se Tempo, na memória dos dias:

Os dias talvez sejam iguais para um relógio mas não para um homem.

 Marcel Proust





publicado por omeuinstante às 13:00 | link do post

Quinta-feira, 19.01.12

Kant considera que o homem tem a oportunidade de ser feliz quando aproxima o seu querer do dever. Assim nasce, para o filósofo de Königsberg, o homem como criador, uma vez que no mundo da liberdade o homem é o criador das próprias leis. Enquanto releio Oscar Wilde, De Profundis, sinto que o arco do pensamento os une através desta passagem: ser inteiramente livre e ao mesmo tempo inteiramente dominado pela lei, é o eterno paradoxo da vida humana de que nos apercebemos a todo o momento.



publicado por omeuinstante às 22:47 | link do post

Quarta-feira, 18.01.12

Deixem passar...


Havia sentinelas a guardar
A fronteira do sonho proibido.
Mas ergui, atrevido,
A voz de sonhador,
E passei
Como um rei,
Sem dar mostras do íntimo terror.

E cá vou a passar,
aterrado e sozinho,
A lembrar
O santo-e-senha com que abri caminho...

Miguel Torga, 1973



publicado por omeuinstante às 10:07 | link do post

Terça-feira, 17.01.12

‎Ninguém ignora que a poesia é uma solidão espantosa, uma maldição de nascença, uma doença da alma.

 

Jean Cocteau



publicado por omeuinstante às 13:00 | link do post

Sócrates foi um dos primeiros filósofos a introduzir a questão das condicionantes da acção humana. Na sua opinião, o corpo impede-nos de praticar a verdade; de sermos agentes livres.

No Fédon, Sócrates-Platão, diz: enquanto possuirmos um corpo e a nossa alma estiver reunida a este mau companheiro jamais possuiremos o objecto dos nossos desejos, que afirmamos ser verdade.

Deste ponto de vista, as emoções e as paixões são consideradas condicionantes da acção humana.

 

 



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Segunda-feira, 16.01.12

Uma forma inovadora de gerir a crise... crises.
Aqui. 



publicado por omeuinstante às 21:26 | link do post

Folheando Homens Domésticos-Homens Selvagens, relembro que não há bom futuro sem inquietação no presente.
O autor da obra, Serge Moscovici, cita John Milton na página 38:

Não conhecer pormenorizadamente as coisas afastadas de nós
obscuras e subtis, mas conhecer

O que se encontra à nossa frente na

vida quotidiana,

É a sabedoria primordial; tudo o mais

é fumo.
ou vacuidade, ou tola impertinência,
E deixa-nos, nas coisas que mais nos

pertencem,
sem prática, sem preparação e sempre procurando.

 



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Domingo, 15.01.12

Ninguém ouve a canção, mas o ribeiro canta!
Canta, porque um alegre deus o acompanha!
Quantos mais tombos, mais a voz levanta!
Canta, porque vem limpo da montanha!

Espelho do céu, é quanto mais partido
Que mais imagens tem da grande altura.
E quebra-se a cantar, enternecido
De regar a paisagem de frescura.

Água impoluta da nascente,
És a pura poesia
Que se dá de presente
Às arestas da humana penedia..."

Miguel Torga, Odes.



publicado por omeuinstante às 10:04 | link do post

Sexta-feira, 13.01.12

Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia,
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.


Alexandre O´Neill, Poesias Completas



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Quinta-feira, 12.01.12

‎De que são feitos os dias?

- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Cecilia Meireles



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Quarta-feira, 11.01.12

A Gradiva de Jensen é um romance do escritor alemão Wilhem Jensen, publicado em 1903. É uma obra de leitura obrigatória tendo em conta a influência que exerceu na cultura europeia, em particular no movimento surrealista.

O romance narra as aventuras de um jovem arqueólogo alemão Norbert Hanold, obcecado pela imagem da jovem esculpida no baixo-relevo descrita no post anterior. Tendo o sonho como meio, Hanold desperta em Pompeia, cidade soterrada pela erupção do Vesúvio, no ano 79 d.C. De forma não linear, percebe-se que Gradiva- a mulher de mármore, dá lugar a Zoe-nome que significa vida-, um amor de infância.
Freud encontra neste romance terreno fértil para escavar e construir os caminhos que o tornaram conhecido, o delírioa fantasiao sonho e o despertar do erotismo adormecido- os processos de recalcamento. E assim, em 1907, Freud publica Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen, texto pioneiro no campo da interpretação psicanalítica da literatura. 



publicado por omeuinstante às 15:37 | link do post

A leitura do livro de Freud, Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen-publicação da Gradiva-, mais o fascínio que sinto pela etimologia das palavras, preencheram os últimos dias em pesquisas sobre o significado do termo Gradiva. Recuperando o sentido primeiro,  em latim,  significa aquela que avança.
Logo nas primeiras voltas, somos transportados para o museu Chiaromonti, no Vaticano, onde podemos contemplar um belo pedaço das Aglaurides - A Gradiva- baixo relevo do século II, representando uma jovem que levanta as vestes enquanto dança. Ainda na recuperação do sentido primordial do termo, encontramos a figura do deus romano Marte, Mars Gradivus- Marte que avança.

 



publicado por omeuinstante às 14:27 | link do post

Com a mão recolho este vazio,
imponderável noite, constelações fulgentes,
um coro mais calado que o silêncio,
um rumor de lua, algo secreto, um triângulo,
um trapézio de giz.
É a noite oceânica, a solidão murmuradora,
portas abertas a medo, asas,
a vasta povoação sem existência
palpitando, transbordando os nomes do estuário.

Noite, nome do mar, pátria, cacho, rosa!

Pablo Neruda


publicado por omeuinstante às 13:56 | link do post

‎Os teus olhos são dias bonitos.

Kha Tembe



publicado por omeuinstante às 12:25 | link do post

Terça-feira, 10.01.12

A cultura pós-moderna representa o pólo "superestrutural" de uma sociedade que sai de um tipo de organização uniforme, dirigista, e que, para o fazer, mistura os últimos valores modernos, reabilita o passado e a tradição, revaloriza o local e a vida simples, dissolve a preeminência da centralidade, dissemina os critérios da verdade e da arte, legitima a afirmação da identidade pessoal de acordo com os valores de uma sociedade personalizada onde o que importa é que o indivíduo seja ele próprio, e onde tudo e todos têm, portanto, direito de cidade e a serem socialmente reconhecidos, sendo que nada deve doravante impor-se imperativa e duradouramente, e todas as opções, todos os níveis, podem coabitar sem contracção nem relegação. A cultura pós-moderna é descentrada e heteróclita, materialista e psi, porno e discreta, inovadora e rétro, consumista e ecologista, sofisticada e espontânea, espectacular e criativa; e o futuro não terá, sem dúvida, que decidir em favor de uma destas tendências, mas, pelo contrário, desenvolverá as lógicas duais, a co-presença flexível das antinomias.

 

Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio



publicado por omeuinstante às 16:38 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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