Terça-feira, 01.09.15

 

3

 

um pensamento branco quase passa

na linha vertical do horizonte

 

a voz dos homens está

deitada no fogo, dormida

adormecida.

 

o chumbo muito lento escorre

na calçada.



publicado por omeuinstante às 22:45 | link do post

Segunda-feira, 13.10.14

 

algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes

ácidos da louça, não serão recordadas. ou quanto mais

as recordarmos, mais a ignorância deitará

os corpos no tapume de vidros, para que em torno

se conciliem as vontades singulares, as 

particularidades de um impetuoso alarme.

ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos

encolhidos, para que um amplo destino os atravesse.

considerem, por exemplo o paquete que ao meio-dia

digere as minuciosas palmeiras sobre a

alta insensatez dos aquedutos. ou ainda

a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo

do outro lado das vidraças: azul, não é?

assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?

 

António Franco Alexandre, Poemas, Assírio & Alvim, p.94



publicado por omeuinstante às 23:13 | link do post

Domingo, 02.02.14

 

1

 

estas cidades, grés animal, as garrafas de sangue nos passeios,

prenunciam devagarmente um acordar translúcido. o que

movimentam no espaço, e aos bandos

os pássaros decifram sobre o musgo e a hera,

é o mesmo ar que na traqueia queima; e o cimento,

translúcido, o mesmo que nos braços percorreu as veias,

que nos olhos foi lava, que nos brilhou na boca

dizendo:estas cidades, grés animal, um acordar sem boca.

 

António Franco Alexandre, Poemas, Assírio & Alvim, p. 97.



publicado por omeuinstante às 21:27 | link do post

Quinta-feira, 22.11.12

dá-me a alegria, a sem razão nenhuma que se veja,

dou-te alegria, a sem caminhos na clareira,

a de nenhum sinal em terra nua.

dá-me a tristeza, a toda certa sem fronteiras.

dou-te tristeza, a cinza em cinza devastada,

a oiro no silêncio debruada.


por águas me verti, por rios, sementes.

de terra me vestes, a sombra do dia,

o sítio das flechas no corpo, na árvore.

no sossego das chuvas me reparto.

ficas no escuro, nos ramos nos frutos,

embrulho novelo a desajeito.

 

a porta quase aberta diz que me recebes,

quase fechada diz que me visitas.

assim te visite, assim te receba.

nenhuma palavra que o gesto não faça.

de águas me vista, em terra me vertas.

no corpo das flechas o sítio, nos rios.

António Franco Alexandre, Poemas, Assírio & Alvim, pág 290 



publicado por omeuinstante às 14:10 | link do post

Sexta-feira, 15.07.11

fico aguardando telegramas, os azuis

recados. 

os poderes da manhã já pouco duram. 

à superfície o som move na boca 

um pouco sopro. 

não julgues que me importam as roldanas 

do tempo no teu 

corpo 

são certos os abismos de cartão 

e falsa a neve que nos cobre os passos. 

de graça a terra nos dispõe na foto 

e a idade inventa nomes que a dissipem 

descobre-me impacientes os recados o 

envelope da urgência o intervalo 

de A Pequena Face 


António Franco Alexandre, Poemas



publicado por omeuinstante às 10:10 | link do post

Quinta-feira, 14.07.11

esta esquisita prova me tentou

de tecer um rumor em muros de água

ossos de terra calcinada

o jugo


culpado me castigo com engenho

e da voz desenhada o artifício

restos de pele antiga

no laço da armadilha


em silêncio me muro e me demoro

no cálculo de rotas inexactas


em duro arbítrio quer que me desprenda

dos cinco ou mais sentidos

vou ser livre na terra desnudada

vou dizer o que sei como quem mente.

(...)


António Franco Alexandre, Poemas, Assírio & Alvim, p.175 



publicado por omeuinstante às 10:08 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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