Domingo, 26.03.17

 

É uma obra com vinte e três histórias. A primeira intitula-se “Estilo”. Um exercício sobre a forma de arrumar o vazio. O método, quando bem aplicado, ao quotidiano por exemplo, desembaraça-nos da “desordem estuporada da vida”. Portanto, crie o seu Estilo. Assente na arte da fuga, com passos, o Estilo permite-nos caminhar para o essencial: o afastamento. Quem se afasta, compreende. Aplique-o todos os dias. O segredo está na repetição. Compassos de movimento circular. Inexoravelmente.

 

“É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas. (...). Consegui um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos (...) ...Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício, este. Às vezes uso o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? (...) Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença, Medo, Morte, Metamorfose. Digo-a baixo vinte vezes. Já nada significa. É um modo de alcançar o estilo. (...)".

 

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publicado por omeuinstante às 19:52 | link do post

Terça-feira, 12.01.16

 

profano, prático, público, presto, profundo, precário,

improvável poema,

contudo

nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar

a terra,

porque éramos inocentes,

nós que só queríamos silêncio,

e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,

e é assim possível que trouxessem qualquer espectáculo com

cristos nus e saltimbancos de feira,

 

Herberto Helder, Servidões

 

 



publicado por omeuinstante às 16:25 | link do post

Terça-feira, 24.03.15

 

De regresso à terra, lugar de nascimento da poesia e do "poema contínuo".

 

herbertohelder.jpg

 

" Ninguém tem mais peso que o seu canto.

A lua agarra-o pela raiz,

arranca-o.

Deixa um grito que embriaga,

deixa sangue na boca.

Que seja a demonia: - a arte mais forte de morrer

pela música, pela

memória."

Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio & Alvim, p.543.

 



publicado por omeuinstante às 20:01 | link do post

Segunda-feira, 23.06.14

 



Sempre. Dormiram, acordaram, esgotaram-se. Vivem na escuridão, no vácuo. Têm mãos. Respiram sombriamente sobre as mãos.

Depois param.

Então criam a festa. As forças irrompem do fundo; fazem vacilar o fino e o precário equilíbrio da terra. Para lá da lei abolida, as coisas tornam-se vísiveis, com uma intensidade, uma transparência anterior: sinais, vozes, tudo. Como se o mundo inteiro curasse uma ressaca no corpo de cada um, e essa lípida desordem deixasse o coração escorrido.
É a festa dos homens.

 

Herberto Helder, Passos em Volta



publicado por omeuinstante às 21:58 | link do post

Segunda-feira, 09.06.14

 

Um profundo exercício sobre a vida e a norma. Um poema inteiro, feito de cinzas e restos. Debaixo da pele, despida de ismos, o poeta deambula entre as trevas e a luz e, no gesto, constrói a esperança de um território primordial - o eu nu. Uma inquietação levada à alma. Sem disfarces: " Esta é a minha Elegia".

 

e só agora penso:

porque é que nunca olho quando passo defronte de mim

                                                                        mesmo?

para não ver quão pouca luz tenho dentro?

ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,

agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?

- cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo

                                    fundo e amargo espelho velho:

e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente

                                                                 

                                                                  o mesmo

 

Herberto Helder, A Morte Sem Mestre, Porto Editora, p.16



publicado por omeuinstante às 22:23 | link do post

Sexta-feira, 18.10.13

 

Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.

 

Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio & Alvim, pág. 285



publicado por omeuinstante às 21:47 | link do post

Segunda-feira, 10.06.13


Servidões. E visões e vozes. Mas sem alma, nada há a salvar. E a música, a música, quando, como, em que termos...

 e a música, a música, quando, como, em que termos

                                                                   extremos

a ouvirei eu,

e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,

tão primeiras para o corpo mergulhado,

magníficas,

desmoronadas,

marítimas,

e que eu desapareça na luz delas -

só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,

curto poema completo,

com o autor cá fora salvo no derradeiro instante

numa poalha luminosa?


Servidões, Herberto Helder, Assírio & Alvim, p. 55.



publicado por omeuinstante às 19:23 | link do post

Terça-feira, 26.02.13

                               V

 

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira

e a eternidade das mãos.

Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas

lâmpadas, todas as coisas.

As coisas que são uma só no plural dos nomes.

- E nós estamos dentro, subtis e tensos

na música.

 

(...)

Herberto Helder, Poesia Toda, pág. 77. 



publicado por omeuinstante às 21:02 | link do post

Sexta-feira, 23.11.12

Herberto Helder, 82 anos de vida. Homenagem ao Poeta. 
 

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

 

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

 

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

 

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.




publicado por omeuinstante às 00:18 | link do post

Quinta-feira, 02.02.12

saber ninguém pode

o que o lago esconde

em seu fundo seio.
assim guardes tu

o que saibamos de outros.
melhor inda: esquece-o.

 

Herberto Helder, Poemas Ameríndios, Assírio & Alvim ( 1997), p. 60



publicado por omeuinstante às 09:00 | link do post

Domingo, 18.09.11

Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.

Herberto Helder



publicado por omeuinstante às 19:05 | link do post

Sábado, 17.09.11

Se há aqui excesso de nomes e referências, sejam eles tomados como montagem, concebida num apoio cultural estilisticamente irónico.

 

Herberto Helder



publicado por omeuinstante às 23:00 | link do post

Sexta-feira, 15.07.11

Fecharia os olhos sob os anéis dos astros e entre os violinos e os fortes poços da noite, descobriria a ardente ideia da minha vida. 

Herberto Helder



publicado por omeuinstante às 13:00 | link do post

Quarta-feira, 13.07.11

Mexo a boca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.


Herbero Helder, Poesia Toda



publicado por omeuinstante às 22:57 | link do post

Segunda-feira, 08.11.10

Amo devagar os amigos que são tristes

com cinco dedos de cada lado.

Os amigos que enlouquecem

e estão sentados,

fechando os olhos,

com os livros atrás a arder

para toda a eternidade.

 

Não os chamo,

e eles voltam-se profundamente

dentro do fogo.

- Temos um talento doloroso e obscuro.

Construímos um lugar de silêncio.

De Paixão.

 

Herberto Helder, Aos Amigos, in Revista Inútil



publicado por omeuinstante às 10:02 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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