Segunda-feira, 11.11.13

 

As cidades mencionadas por Marco Polo a Kublai Khan têm todas nomes de mulher. Por culpa dos espelhos, parei em Valdrada, cidade edificada nas margens de um largo lago. Uma viagem sem acessórios, porque, aqui, e em todas as cidades descritas por Italo Calvino, o viajante necessita apenas de si mesmo. Cidade sem lugar nem tempo, mas onde a universalidade da linguagem (poética) transporta a humanidade toda. 
Requisito único: na imaginação, a liberdade...


Um livro mágico. Não me canso de o ler.

 

III


 As cidades e os olhos. 1.

 

Os antigos construíram Valdrada nas margens de um lago com casas todas varandas umas por cima das outras e ruas altas que fazem assomar à água os parapeitos em balustre. Assim o viajante ao chegar vê duas cidades: uma direita sobre o lago e uma reflectida de pernas para o ar. Não existe nem acontece coisa numa Valdrada que a outra Valdrada não repita, porque a cidade foi construída de modo a que todos os seus pontos fossem reflectidos pelo seu espelho, e a Valdrada na água contém não só todas as estrias e os remates das fachadas que se elevam por cima do lago mas também o interior das casas com os tectos e pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários.

  Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus actos são ao mesmo tempo esse acto e a sua imagem especular, a que pertence a especial dignidade das imagens, e esta sua consciência proíbe-os de se abandonarem por um só instante ao acaso e ao esquecimento.
(...) 


 

 (A capa desta edição da Teorema -  reprodução do quadro de  Bruegel, A Torre de Babel)



publicado por omeuinstante às 23:19 | link do post

Segunda-feira, 26.07.10

O que é um Clássico? Isto no que diz respeito aos clássicos antigos tanto quanto aos clássicos modernos.

Haverá distinção entre ler e reler uma obra?

Não, não há. Nem tem muita importância.

Só os episódios de cada vida - no espaço e no tempo - pormenorizam a distinção.

Rerrelamos.

 

1. Os clássicos são os livros de que se costuma ouvir dizer: " Estou a reler..." e nunca " Estou a ler ".

4. De um clássico toda a releitura é uma leitura de descoberta igual à primeira.

5. De um clássico toda a primeira leitura é na realidade uma releitura.

6. Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer.

14. É um clássico o que persiste como ruído de fundo mesmo onde dominar a actualidade mais incompatível.

 

Italo Calvino, Porquê Ler os Clássicos?, Teorema (1994, pág 7, 9, 12), Tradução de José Colaço Barreiros


A única asserção verdadeira consiste em afirmar que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.



publicado por omeuinstante às 18:30 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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