Domingo, 26.03.17

 

É uma obra com vinte e três histórias. A primeira intitula-se “Estilo”. Um exercício sobre a forma de arrumar o vazio. O método, quando bem aplicado, ao quotidiano por exemplo, desembaraça-nos da “desordem estuporada da vida”. Portanto, crie o seu Estilo. Assente na arte da fuga, com passos, o Estilo permite-nos caminhar para o essencial: o afastamento. Quem se afasta, compreende. Aplique-o todos os dias. O segredo está na repetição. Compassos de movimento circular. Inexoravelmente.

 

“É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo, se não quer dar em pantanas. (...). Consegui um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos (...) ...Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício, este. Às vezes uso o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? (...) Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença, Medo, Morte, Metamorfose. Digo-a baixo vinte vezes. Já nada significa. É um modo de alcançar o estilo. (...)".

 

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Quinta-feira, 17.12.15

 8 de Junho de 1903 - 17 de Dezembro de 1987

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E é por isso que, no fundo, não tenho por mim mesma mais do que um interesse limitado. Tenho a impressão de ser um instrumento através do qual passaram correntes, vibrações. Isto é válido para todos os meus livros e direi mesmo que para toda a minha vida. Talvez para todas as vidas; e os melhores de nós talvez não sejam, também eles, mais que cristais trespassados. Assim, a propósito dos meus amigos, vivos ou mortos, repito-me muitas vezes a frase admirável que me disseram ser de Saint-Martin, “o filósofo desconhecido” do século XVIII, tão desconhecido de mim que nunca li uma linha dele e nunca verifiquei a citação: “Há seres através dos quais Deus me amou.” Tudo vem de mais longe e vai mais longe que nós. Por outras palavras, tudo nos ultrapassa e sentimo-nos humildes e maravilhados por termos sido assim trespassados e ultrapassados.

 

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos

 



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Quinta-feira, 09.10.14

 

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Sexta-feira, 29.11.13
(...) digo-te o que descobri. O conhecimento pode ser comunicado, mas a sabedoria, não. Uma pessoa pode encontrá-la, vivê-la, ser fortificada por ela, operar maravilhas por seu intermédio, tudo menos comunicá-la e ensiná-la. Desconfiei disso quando ainda era novo e foi isso que me afastou dos mestres. 

Hermann Hesse, Siddhartha, Minerva, 1997



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Sexta-feira, 19.07.13

 

" Que Deus é este que toma a mulher de um homem honrado e nela deposita a sua semente?"

 

Acabei de ler o primeiro romance de Nuno Lobo Antunes. Em Nome do Pai é uma narrativa ficcionada sobre a vida do pai de Jesus. Antes de morrer, José dá-nos conta das circunstâncias que o colocaram, aleatoriamente, entre o céu e a terra e como o Senhor lhe perturbou o equilíbrio condenando-o à "tortura do imaginado". Assistimos ao relato de um homem desesperado e de coração escarpado que se busca a si mesmo porque não alcança o fim último da ordem do sobrenatural.


José não compreende o que lhe aconteceu, por que razão foi o escolhido e, portanto, desconfia. Através do exercício de interrogação profunda, da paisagem interior, rejeita o destino que lhe roubou a possibilidade de viver entre os homens como um igual e rejeita também a ruptura da homogeneidade do espaço e do tempo.


O pai de Jesus, o artífice das formas belas, quer apenas existir e Nuno Lobo Antunes realiza-lhe o desejo íntimo de ser, homem, oferecendo-lhe um corpo. Com ele, mas sempre sob as estrelas, o homem que ama fabrica a transcendência. O sentimento, o amor salva-o.


Ao longo da leitura e em diversos momentos, senti o desejo de acompanhar a exposição pública desta alma arcaica de olhos bem fechados, como sinal de recusa desta servidão universal. 

A escrita, muito bela, de Nuno Lobo Antunes faz deste livro um grande romance. Um excelente retrato sobre a condição humana. Recomendo-o vivamente.





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Sexta-feira, 26.04.13

 


Em O Amigo, Agamben apresenta-nos o heteros autos como alteridade imanente na mesmidade e define a amizade nos limites da con-partilha. Não há na amizade nenhuma relação entre sujeitos: é o próprio ser que é dividido, que não é idêntico a si, e o eu e o amigo são as duas faces - ou antes os dois pólos - desta con-partilha. Tendo como pré-texto um trecho da Ética Nicomaqueia de Aristóteles e depois de termos sido convidados a fazer a leitura em conjunto, Agamben discursa sobre a relação humana da amizade e sobre as bases ontológicas e políticas em que se auto-sustenta.


A amizade é a instância desse con-sentimento da existência do amigo no sentimento da sua própria existência.





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Segunda-feira, 17.12.12

Proposta de leitura do Le Monde Diplomatique - Edição Portuguesa, Dezembro 2012.

 

«Em 1944, Karl Polanyi publicou A Grande Transformação: as origens políticas e económicas do nosso tempo, obra em que analisou a estrutura do capitalismo no século XIX a partir de uma tese inovadora, de cariz marcadamente institucional e político: a Inglaterra não fora transformada apenas pela máquina a vapor, nem sequer pelas anteriores expansão do comércio mundial e revolução agrícola; não fora a industrialização per se que desencadeara os processos de conflito e de desorganização social que marcaram o longo século XIX. A miríade de motins, revoltas, movimentos genéricos de protesto, revoluções sociais e ciclos intensos e recorrentes de violência a estes associados e que caracterizaram as eras da revolução, do capital e do império, resultaram também da emergência de um conjunto de propostas intelectuais - de Ricardo a James Mill, passando por Marx -, progressivamente desenvolvidas no interior de instituições sociais várias, que postularam a prevalência do mercado enquanto forma histórica primordial de organização da sociedade. A Grande Transformação consistiu sim, essencialmente, na extensão do sistema de mercados a todas as esferas da vida humana, cuja lei da oferta e da procura passou a determinar autonomamente a afetação e a remuneração de fatores de produção como a terra (a natureza) - e o trabalho (ou seja, a própria utilização da vida humana). Assim, a principal preocupação de Polanyi foi a de demonstrar como se formaram historicamente, primeiro, os mercados nacionais e internacionais e, nesta sequência, como se passou de uma configuração caracterizada por trocas livres para uma outra, marcada por um intenso controlo político e social, em reação à grande crise de 1929 (...)»

Sinopse - Bulhosa 



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Terça-feira, 04.12.12

Sobre a lucidez de Saramago; e do riso (secreto e audível) que a envolve.

 

Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.



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Domingo, 07.10.12

Quem Poderá Calcular a Órbita da sua Própria Alma?

As pessoas cujo desejo é unicamente a auto-realização, nunca sabem para onde se dirigem. Não podem saber. Numa das acepções da palavra, é obviamente necessário, como o oráculo grego afirmava, conhecermo-nos a nós próprios. É a primeira realização do conhecimento. Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?
 

Oscar Wilde, De Profundis
(Do FB. Página de Maria Helena Reis Pereira)
 



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Quarta-feira, 03.10.12

Depois de me instalar em Bouvillehospedagem de site gratis html constato, nos gestos dos seres com quem me cruzo, a razão de ser das palvras de Antoine Roquentin:
 as coisas são inteiramente o que parecem - e por trás delas...não há nada.



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Sábado, 29.09.12

As cores, mesmo pálidas, fazem-me feliz.
Meus olhos são capazes de tirar
fotografias. Sempre que me permito
ou com saliente tremura, ordeno, sinto,

Tudo o que cabe no meu campo de visão
- Uma cena de interior, folhas de nogueira, esbeltos

Estiletes de gélido estilicídio -

Permanece em fixação intraciliar 

E duram um bom par de horas
E enquanto isso bastar-me-á
Cerrar os olhos e ver as folhas,

Ou a cena de interior, ou os troféus de água.

Vladimir Nabokov, Fogo Pálido, Canto Primeiro 



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Quarta-feira, 29.08.12

Diz-se, Lolita é o romance de Vladimir Nabokov. É. Deu-lhe o reconhecimento merecido. Mas intrigante e desconcertante é acompanhar as satíricas aventuras de Fogo Pálido. O texto - hipertexto - é um poema em 999 versos, seguido de uma série de comentários ao próprio poema. Na nota bibliográfica da edição que leio, Eduardo Prado Coelho refere: 
Em Fogo Pálido, trata-se também de um jogo narrativo: partindo do comentário supostamente universitário de um longo poema vemos erguer-se um poderoso espaço de ficção que nos perturba, arrasta e permanentemente nos desconcerta.
Um jogo hermético que se constitui em paródia. Apesar de o Canto Dois ser o mais apreciado, transcrevo o início do Canto Um. Pelos pássaros.

 

Fui a sombra do ampelis despenhando-se

No céu falso da vidraça;

Fui a nódoa de um tufo de cinzas - e

Vivi sempre, fluí, no céu reflectido.

E também por dentro me dupliquei,

A minha luz, maçã pousada:
Desvelando a noite, deixarei o vidrado negro 
Suspender os móveis acima do solo
E que delícia o nevão que veio cobrir

O meu pedaço de terra, erguendo-se
Levando cama e cadeira a pairar
Sobre a neve lá fora, na terra de cristal!

A neve que cai: cada floco que paira
Lento e informe, opaco e corredio,

Branco sujo na placidez do dia
E os lariços abstractos à neutral luz.
E então os dois azuis graduais

Quando a noite une o olhar ao visto,
E de manhã, diamantes de gelo
Exprimindo espanto: que esporas cruzaram
Daqui para ali, a folha nua do caminho?
Ler daqui para ali no código do inverno:
Um ponto, seta de regresso...Pé de faisão
De anilhada beleza, tetraz sublime
Que encontra o seu oriente no meu quintal? 
(...) 



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Terça-feira, 28.02.12

A poesia como atitude de religação essencial.

 

Sim, a poesia pode salvar o homem.

 Czeslaw Milosw, O livro dos Saberes, p. 283



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Segunda-feira, 16.01.12

Folheando Homens Domésticos-Homens Selvagens, relembro que não há bom futuro sem inquietação no presente.
O autor da obra, Serge Moscovici, cita John Milton na página 38:

Não conhecer pormenorizadamente as coisas afastadas de nós
obscuras e subtis, mas conhecer

O que se encontra à nossa frente na

vida quotidiana,

É a sabedoria primordial; tudo o mais

é fumo.
ou vacuidade, ou tola impertinência,
E deixa-nos, nas coisas que mais nos

pertencem,
sem prática, sem preparação e sempre procurando.

 



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Domingo, 15.01.12

Freud ensinou a escavar as ruínas da nossa história pessoal, prática que como método dá acesso a nós próprios e, sabemos, desperta o recalcamento.

 

Quando Norbert Hanold encontrou o baixo-relevo, não se lembrou de que, quando era pequeno, já tinha visto os pés da amiguinha numa posição semelhante, não se lembrou de nada, embora tudo o que a escultura causou nele derivasse desse elo.

 

 

Freud, Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen, Gradiva, p.66



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Quarta-feira, 11.01.12

A Gradiva de Jensen é um romance do escritor alemão Wilhem Jensen, publicado em 1903. É uma obra de leitura obrigatória tendo em conta a influência que exerceu na cultura europeia, em particular no movimento surrealista.

O romance narra as aventuras de um jovem arqueólogo alemão Norbert Hanold, obcecado pela imagem da jovem esculpida no baixo-relevo descrita no post anterior. Tendo o sonho como meio, Hanold desperta em Pompeia, cidade soterrada pela erupção do Vesúvio, no ano 79 d.C. De forma não linear, percebe-se que Gradiva- a mulher de mármore, dá lugar a Zoe-nome que significa vida-, um amor de infância.
Freud encontra neste romance terreno fértil para escavar e construir os caminhos que o tornaram conhecido, o delírioa fantasiao sonho e o despertar do erotismo adormecido- os processos de recalcamento. E assim, em 1907, Freud publica Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen, texto pioneiro no campo da interpretação psicanalítica da literatura. 



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Terça-feira, 10.01.12

A cultura pós-moderna representa o pólo "superestrutural" de uma sociedade que sai de um tipo de organização uniforme, dirigista, e que, para o fazer, mistura os últimos valores modernos, reabilita o passado e a tradição, revaloriza o local e a vida simples, dissolve a preeminência da centralidade, dissemina os critérios da verdade e da arte, legitima a afirmação da identidade pessoal de acordo com os valores de uma sociedade personalizada onde o que importa é que o indivíduo seja ele próprio, e onde tudo e todos têm, portanto, direito de cidade e a serem socialmente reconhecidos, sendo que nada deve doravante impor-se imperativa e duradouramente, e todas as opções, todos os níveis, podem coabitar sem contracção nem relegação. A cultura pós-moderna é descentrada e heteróclita, materialista e psi, porno e discreta, inovadora e rétro, consumista e ecologista, sofisticada e espontânea, espectacular e criativa; e o futuro não terá, sem dúvida, que decidir em favor de uma destas tendências, mas, pelo contrário, desenvolverá as lógicas duais, a co-presença flexível das antinomias.

 

Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio



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Sábado, 07.01.12

É no Homem que o Universo morde a cauda.

João Carlos Silva, Também Aqui Moram Os Deuses, Chiado Editora 



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Quarta-feira, 04.01.12

Na Segunda Guerra Mundial, sob o falso manto do voluntariado, o Japão recrutou pilotos suicidas na elite universitária do país. Embora " os voluntários" tivessem sido adestrados para morrer, deixaram escritos- cartas a familiares- onde estão gravadas as perplexidades, as dúvidas e medos da sua condição de Kamikase. 
Os soldados-estudantes- os tokkõtai-, foram constituídos em Outubro de 1944 pelo vice-almirante Onishishi Takijiro com o proprósito de eliminar os porta-aviões americanos. Eram soldados treinados não tanto para matar, mas para morrer pela pátria.

O livro da americana Emiko Ohnuki-Tierney, Kamikase Diaries: Reflections of Japanese Student Soldiers, corrige a História e desvela a face, não sorridente, do sentir dos homens concretos.

No Diário de Hayashi Tadao, pode ler-se:

 

 1 de Janeiro de 1944- Talvez o que nos espera seja uma funda desilusão e, para a nossa sociedade, uma anarquia insidiosa. Sonho em alongar-me sobre as ondas do mar num dia ensolarado de primavera para me intoxicar com pensamentos soltos enquanto o meu corpo se solta à deriva na água... De repente, vem -me à mente uma cena de Casa dos Mortos- no entardecer de um dia de verão de céu esbranquiçado, os prisioneiros são empurrados para dentro das celas.

Vivo na solidão.
8 de Maio-  O individualismo não é um mero "ismo", mas um princípio inato do ser humano. Realmente odeio os militares (...)

14 de Julho- Hoje encerro o meu diário, fruto da minha empobrecida vida espiritual. Eu, confusão e anarquia, estou reduzido a isso. O que me atrai são questões sobre a natureza da sociedade moderna. Neste diário eu expus as minhas fraquezas. Este misérable humano na sua totalidade está aqui retratado. Escrever o diário foi uma forma de encontrar algum sentido para mim. 
O que desejaria, para mim, é andar pelas ruas de Moscou com uma boina na cabeça, estudar economia e política internacional numa Bibliothek alemã ou envolver-me numa análise teórica dos rumos a serem tomados pelo Japão. Se eu viver, é o que farei. Se eu morrer, terá sido um mero sonho. Gostaria de pensar neste diário como o primeiro capítulo do registo de um ser humano que tinha um grande sonho, mas que não encontrou uma solução. Tentei como pude realizar este sonho. Fim.

 

Hayashi Tadao morre no dia 28 de Julho, aos 24 anos, já depois da rendição aos americanos. O seu avião explodiu numa noite enluarada.
( Síntese a partir da leitura da Revista Piauí, 61, Outubro de 2011)



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Sexta-feira, 02.12.11

O poeta e romancista italiano Cesare Pavese (1908-1950) escreveu A Lua e as Fogueiras poucos meses antes de se suicidar, em Turim, num quarto de hotel.  

A narrativa gira à volta de um homem sem rosto que regressa à terra onde nasceu, revivendo o passado no presente. 

É um livro sobre as origens, sobre a busca de identidade. Simples e belo. 

 

Tantas vezes me havia imaginado encostado ao parapeito da ponte, a interrogar-me como fora possível passar tantos anos naquele buraco, naqueles caminhos, pastoreando a cabra e procurando maçãs caídas no fundo da ribeira, convencido de que o mundo terminava na curva onde a estrada descia até ao Belbo. (...)
Deste modo, durante muito tempo julguei que esta terra onde nasci fosse tudo o que havia no mundo. Agora que vi realmente o mundo e sei que é formado por tantas pequenas aldeias, não sei se em rapaz me enganava muito.

 Cesare Pavese, A Lua e as Fogueiras, Colecção Mil Folhas, pp 7-8 



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Terça-feira, 29.11.11

Um discurso sobre a fragilidade da escrita:

A maior parte das pessoas não lê livros. Porém, canta e dança.

 

G. Steiner, O Silêncio dos Livros, Gradiva, p.9



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Terça-feira, 15.11.11

O inferno são os outros- disse Sartre.

E é sobretudo por isso que se usam óculos escuros.

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand, p.190 



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Domingo, 13.11.11

Só quero lembrar
se o tempo for todo meu.

Só anseio lembrança
se não houver passado.

Bruma e espuma,
apagam o tempo em que não amei.

E eu amei
para ser tudo, todos, sempre.

Para te visitar
esquecerei a terra
e apagarei as estrelas.

E irei pelos teus olhos,
até o mundo voltar a ter princípio.

Sou eu, dirás,
E o tempo será lembrado.

Mia Couto. (2011). Tradutor de Chuvas. Lisboa. Caminho, pg. 102.



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Quarta-feira, 09.11.11

Daniel Dennett, filósofo norte-americano contemporâneo, é conhecido pelas suas investigações em filosofia da mente, filosofia do conhecimento e filosofia da biologia.

Através duma escrita precisa e clara torna acessível o conhecimento à generalidade dos leitores, ultrapassando o hermetismo que encontramos em outros. 

A Ideia Perigosa de Darwin é um bom exemplo. Há medida que avançamos na leitura, dificilmente escapamos à perigosa ideia que é Darwin. 
 

Se tivesse de atribuir um prémio à melhor ideia de sempre, o vencedor seria Darwin, à frente de Newton, de Einstein e de todos os demais.

 

Um livro que interroga as nossas crenças fundamentais. A ler com atenção.

  




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Quarta-feira, 02.11.11

passeou pelos espelhos dos dias

suas clandestinas alegrias

que mal se reflectiram desertaram

  

Ruy belo, Todos os Poemas I, Assírio & alvim

 



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Sexta-feira, 28.10.11

-Se há uma religião? Todos os dias de lua cheia, nós nos reunimos para dar graças a Deus, os homens num grande templo de cedro, as mulheres em outro, para evitar distracções, bem como todos os pássaros num bosque, e os quadrúpedes num belo prado. Agradecemos a Deus todos os bens que nos proporcionou. Temos principalmente papagaios, que pregam às mil maravilhas.

 

Voltaire, A Princesa da Babilónia

 




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Segunda-feira, 24.10.11

O medo, neste século, já não é um produto artesanal.

Os aviões bombardeiros

- ou, em tempo de paz, as falências imprevistas-

impressionam pela tecnologia posta em acção.
Hoje, passa-se fome de modo bem mais moderno

do que no século XVIII, por exemplo.

 

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Caminho, p. 155



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Domingo, 23.10.11

Há um país assim.

 

Nesta Cidade-Mundo

quem poderá entoar

um cântico de júbilo?

 

O real

       O manto da invenção

            Árvores de lágrimas

                Florestas de papel

                     Impotência tudo

 

Um desvalor

enche o nosso coração

 

Ana Hatherly, rilkeana, Assíro & Alvim, p. 71



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Quinta-feira, 20.10.11

Partindo de um episódio de guerra em Angola, António Lobo Antunes escreve Comissão das Lágrimas, livro denso e sombrio. Um canto  de espanto. Doloroso. 

 



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Terça-feira, 18.10.11

Quando a moça lhe estendeu a boca

( A idade da inocência tinha voltado,

Já não havia na árvore maças envenenadas),

Ele sentiu, pela primeira vez, que a vida era um dom fácil
De insuputáveis possibilidades.

 

Ai dele!

Tudo fora pura ilusão daquele beijo.

Tudo tornou a ser cativeiro, inquietação, perplexidade:

 

- No mundo só havia de verdadeiramente livre aquele beijo.

 

Manuel Bandeira, Poesias, Portugália, p. 39

 

 



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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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