Terça-feira, 12.01.16

 

profano, prático, público, presto, profundo, precário,

improvável poema,

contudo

nem eu estava à espera dos bárbaros que viriam devastar

a terra,

porque éramos inocentes,

nós que só queríamos silêncio,

e a voz diria que se fosse preciso traziam Deus,

e é assim possível que trouxessem qualquer espectáculo com

cristos nus e saltimbancos de feira,

 

Herberto Helder, Servidões

 

 



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Terça-feira, 01.09.15

 

3

 

um pensamento branco quase passa

na linha vertical do horizonte

 

a voz dos homens está

deitada no fogo, dormida

adormecida.

 

o chumbo muito lento escorre

na calçada.



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Terça-feira, 24.03.15

 

De regresso à terra, lugar de nascimento da poesia e do "poema contínuo".

 

herbertohelder.jpg

 

" Ninguém tem mais peso que o seu canto.

A lua agarra-o pela raiz,

arranca-o.

Deixa um grito que embriaga,

deixa sangue na boca.

Que seja a demonia: - a arte mais forte de morrer

pela música, pela

memória."

Herberto Helder, Poesia Toda, Assírio & Alvim, p.543.

 



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Quinta-feira, 19.03.15

Vem dos lados do rio, as mãos fresquíssimas, algumas gotas de água ainda nos cabelos. Com a manhã chega o anónimo respirar do mundo. Um cheiro a pão fresco invade o pátio todo. Vem dos lados do rio: para levar à boca, ou ao poema.

 

1507-1.jpg



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Sexta-feira, 20.02.15

 

cadências, que são dobras solidárias.

 

até dentro da pele.

as aves migram

calmamente. eu

permaneço aqui.

 

Vasco Graça Moura, Poesia 1963/1995



publicado por omeuinstante às 21:46 | link do post

Segunda-feira, 13.10.14

 

algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes

ácidos da louça, não serão recordadas. ou quanto mais

as recordarmos, mais a ignorância deitará

os corpos no tapume de vidros, para que em torno

se conciliem as vontades singulares, as 

particularidades de um impetuoso alarme.

ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos

encolhidos, para que um amplo destino os atravesse.

considerem, por exemplo o paquete que ao meio-dia

digere as minuciosas palmeiras sobre a

alta insensatez dos aquedutos. ou ainda

a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo

do outro lado das vidraças: azul, não é?

assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?

 

António Franco Alexandre, Poemas, Assírio & Alvim, p.94



publicado por omeuinstante às 23:13 | link do post

Segunda-feira, 06.10.14

 

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,

Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.

A ave passa e esquece, e assim deve ser.

O animal, onde já não está e por isso de nada serve,

Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

 

A recordação é uma traição à Natureza,

Porque a Natureza de ontem não é Natureza.

O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

 

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

 

 Poemas Completos de Alberto Caeiro, Companhia Aguilar Editora, 1965, p. 224

Biblioteca Luso-Brasileira - Série portuguesa

 



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Terça-feira, 30.09.14

 

para te manteres vivo - todas as manhãs

arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e

o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho

regas o coração e o grande feto verde-granulado

 

deixas o verão deslizar de mansinho

para o cobre luminoso do outono e

às primeiras chuvadas recomeças a escrever

como se em ti fertilizasses uma terra generosa

cansada de pousio - uma terra

necessitada de águas de sons de afectos para

intensificar o esplendor do teu firmamento

 

passa um bando de andorinhões rente à janela

sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo

donde se soltam as abelhas incompreensíveis

da memória

 

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes

que se enforcam com a corda de noctilucos

estendida nesta mudança de estação

 

Al Berto, Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, p. 52



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Sexta-feira, 22.08.14

 

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão



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Terça-feira, 12.08.14

 

 Gerês, 12 de Agosto

 

Aniversário

 

Mãe:

Que visita tão pura que me fizeste

Neste dia!

Era a tua memória que sorria

Sobre o meu berço.

Nu e pequeno como me deixaste,

Ia chorar de medo e de abandono.

Então vieste, e outra vez cantaste,

Até que veio o sono.

 

Miguel Torga, Diário IV, Coimbra (1973), pág 111.

 

 



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Segunda-feira, 09.06.14

 

Um profundo exercício sobre a vida e a norma. Um poema inteiro, feito de cinzas e restos. Debaixo da pele, despida de ismos, o poeta deambula entre as trevas e a luz e, no gesto, constrói a esperança de um território primordial - o eu nu. Uma inquietação levada à alma. Sem disfarces: " Esta é a minha Elegia".

 

e só agora penso:

porque é que nunca olho quando passo defronte de mim

                                                                        mesmo?

para não ver quão pouca luz tenho dentro?

ou o soluço atravessado no rosto velho e furioso,

agora que o penso e vejo mesmo sem espelho?

- cem anos ou quinhentos ou mil anos devorados pelo

                                    fundo e amargo espelho velho:

e penso que só olhar agora ou não olhar é finalmente

                                                                 

                                                                  o mesmo

 

Herberto Helder, A Morte Sem Mestre, Porto Editora, p.16



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Quarta-feira, 04.06.14

 

José Carlos Ary dos Santos. Nasceu em Lisboa no dia 7 de Dezembro de 1936 e faleceu no dia 20 de Janeiro de 1984.

 

 
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.


Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente. 

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai. 

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

 



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Domingo, 01.06.14

 

Um poema de Mário Cesariny

 

Aclamações 
dentro do edifício inexpugnável 
aclamações 
por já termos chapéu para a solidão 
aclamações 
por sabermos estar vivos na geleira 
aclamações 
por ardermos mansinho junto ao mar 
aclamações 
porque cessou enfim o ruído da noite a secreta alegria por escadas 
               de caracol 
aclamações 
porque uma coisa é certa: ninguém nos ouve 
aclamações 

porque outra é indubitável: não se ouve ninguém 



publicado por omeuinstante às 21:13 | link do post

Segunda-feira, 28.04.14

 

Soneto do Amor e da Morte

 

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz o nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

 

Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos 



publicado por omeuinstante às 00:30 | link do post

Domingo, 20.04.14

 

 

Viemos com o peso do passado e da semente

esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se ataca na torrente

e a sede de uma espera só se ataca na torrente

 

Vivemos tantos anos a falar pela calada

só se pode querer tudo quanto não se teve nada

só se quer a vida cheia quem teve vida parada

só se quer a vida cheia quem teve vida parada

 

Só há liberdade a sério quando houver

a paz o pão

habitação

saúde educação

só há liberdade a sério quando houver

liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir. 

 

 

Sérgio Godinho

(Canções de Sérgio Godinho)

 



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Segunda-feira, 10.03.14

 

 

De repente, a chuva parou. Vibram apelos à superficíe lisa.

 

Nas margens, os ramos

aproximam-se das árvores.

 

De costas voltadas, os arbustos

são rosas da planície.

 

Atrás de tudo, está o dia. Relógio qualificado no castigo.

 

Porque não há paz, passam funcionários

passam militares.

 

Porque é preciso reconstruir.

Talvez a Cidade inteira.

 



publicado por omeuinstante às 20:42 | link do post

 

 

Instante

 
Que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas
Onde o ser só dura um instante e onde cada instante
Transborda para o vazio o esquecimento de ter existido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se anulam
Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios
Curvando-se a pedir socorro pedir amor
Sem este céu posto de pé
Sobre o pó do seu lastro
Que faria eu eu faria como ontem e como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não estou sozinho
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço incontrolável
Sem voz no meio das vozes
Que se fecham comigo.


publicado por omeuinstante às 00:05 | link do post

Segunda-feira, 03.03.14

 

Somos nós
As humanas cigarras!
Nós,
Desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos
A passar!...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras,
Asas que em certas horas
Palpitam,
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!

Miguel Torga



publicado por omeuinstante às 22:03 | link do post

Domingo, 02.02.14

 

Poesia na Antena 2. Excelente!

 

"A Vida Breve", do realizador Luís Caetano. No ar de segunda a sexta-feira, às 16:50 (repete às 12:50 do dia seguinte).

Aqui

 

 



publicado por omeuinstante às 22:49 | link do post

 

1

 

estas cidades, grés animal, as garrafas de sangue nos passeios,

prenunciam devagarmente um acordar translúcido. o que

movimentam no espaço, e aos bandos

os pássaros decifram sobre o musgo e a hera,

é o mesmo ar que na traqueia queima; e o cimento,

translúcido, o mesmo que nos braços percorreu as veias,

que nos olhos foi lava, que nos brilhou na boca

dizendo:estas cidades, grés animal, um acordar sem boca.

 

António Franco Alexandre, Poemas, Assírio & Alvim, p. 97.



publicado por omeuinstante às 21:27 | link do post

Segunda-feira, 20.01.14

 

XI

 

Olhos postos na terra, tu virás

no ritmo da própria primavera,

e como as flores e os animais

abrirás nas mãos de quem te espera.

 

Eugénio de Andrade, As Mãos e Os Frutos, Limiar, p. 41

(Póvoa de Atalaia, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005)



publicado por omeuinstante às 22:23 | link do post

Segunda-feira, 06.01.14

 

Inútil discutir estratégia ou táctica
Inútil saber se entre a serra e a cidade
há ligação ou não.
O que importa é o impulso que vem de dentro
subir a uma montanha dentro de si
olhar em volta e dizer:
" Sejamos realistas
exijamos
o impossível."


Manuel Alegre, Che, Caminho, pág. 20



publicado por omeuinstante às 23:26 | link do post

Quinta-feira, 07.11.13

 

David Mourão-Ferreira (1927-1996)

 

Casas, carros, casas, casos.
Capital
          encarcerada.

Colos, calos, cuspo, caspa.
Cautos, castas. Calvos, cabras.
Casos, casos… Carros, casas…
Capital
          acumulado.

E capuzes. E capotas.
E que pêsames! Que passos!
Em que pensas? Como passas?
Capitães. E capatazes.
E cartazes. Que patadas!
E que chaves! Cofres, caixas…
Capital
           acautelado.

Cascos, coxas, queixos, cornos.
Os capazes. Os capados.
Corpos. Corvos. Copos, copos.
Capital,
           oh! capital,
capital
         decapitada!



publicado por omeuinstante às 21:59 | link do post

Terça-feira, 16.07.13

 

Brinca! Pegando numa pedra que te cabe na mão,

sabes que te cabe na mão.
 

Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?

Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar à minha porta.
 

 

Alberto Caeiro 



publicado por omeuinstante às 23:09 | link do post

Domingo, 14.07.13

 

Porque lhes quebrámos as estátuas,
porque os expulsámos dos seus templos,
não morreram, não, os deuses.
A ti, terra da Jónia, ainda eles amam,
e em suas almas sempre te recordam.
Quando a manhã de Agosto é alvorada em ti,
passa em teu ar um ardor dos deuses vivos;
e às vezes uma etérea forma juvenil,
indefinida, em trânsito subtil,
teus montes sobrevoa.

 

Constantino Cavafy (1863-1933).
Tradução -  Jorge de Sena                                     

 

 



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Segunda-feira, 10.06.13


Servidões. E visões e vozes. Mas sem alma, nada há a salvar. E a música, a música, quando, como, em que termos...

 e a música, a música, quando, como, em que termos

                                                                   extremos

a ouvirei eu,

e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,

tão primeiras para o corpo mergulhado,

magníficas,

desmoronadas,

marítimas,

e que eu desapareça na luz delas -

só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,

curto poema completo,

com o autor cá fora salvo no derradeiro instante

numa poalha luminosa?


Servidões, Herberto Helder, Assírio & Alvim, p. 55.



publicado por omeuinstante às 19:23 | link do post

Segunda-feira, 06.05.13

o dia cai

há infelizes que o fim de tarde não acalma

e nem os descontentes entram na dança.


um golpe de vista sobre a cidade

toda a miséria embuçada

e a criança sem paciência e alma.

 

antes da noite

há amores felizes no cheiro bizarro da rosa

e o mar é turíbulo desconhecido.

 


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publicado por omeuinstante às 20:13 | link do post

Segunda-feira, 29.04.13

 

Tudo está 

no som. Uma canção.

Raramente uma canção. Deveria

 

ser uma canção - com

pormenores, vespas,

uma genciana - algo

imediato, tesouras

 

abertas, olhos

de mulher - centrífuga

ao despertar, centrípeta

 

William Carlos Williams, Antologia Breve, Assírio & Alvim, pág. 73

( selecção e tradução - José Agostinho Baptista)



publicado por omeuinstante às 22:53 | link do post

Quarta-feira, 17.04.13


Pouco me importa.

Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.


Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos



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Domingo, 14.04.13

O contrário da matéria

            não é o espírito.

O contrário da matéria

            não é a anti-matéria.

O contrário da matéria

                              é o olhar.

 

Pedro Mexia, Duplo Império



publicado por omeuinstante às 19:00 | link do post

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