Terça-feira, 02.11.10

Sôbolos Rios que Vão é o título do novo livro de António Lobo Antunes. É uma apropriação do primeiro verso do célebre poema de Camões, que por sua vez é uma glosa do Salmo 137.

O discurso literário constrói-se com sentidos cruzados, mascarados e onde nada nos é dado. A narrativa encena a verdade.

E há razões para pensar que o sentido da escolha deste título não se manifestará.

O leitor antuniano não estranha; conhece a afirmação de Lobo Antunes: Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é.

 

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.


E vi que todos os danos
se causavam das mudanças
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

Vi aquilo que mais val,
que então se entende milhor
quanto mais perdido for;
vi o bem suceder o mal,
e o mal, muito pior,
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento,
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

Luís Vaz de Camões - Redondilhas de Sião e de Babel



publicado por omeuinstante às 19:25 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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