Sexta-feira, 18.01.13

 

Deus escreve direito por linhas tortas

E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
 

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós



publicado por omeuinstante às 12:41 | link do post

Sábado, 27.10.12

Não te ofenderei com poemas

 

Param os meus olhos quando penso em ti

Não farei do meu remorso um canto

 

Com árvores e céus mas sem poemas
Demasiado humano para poder ser dito
O teu mundo era simples e difícil
Quotidiano e límpido.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo, Caminho, pág 35 



publicado por omeuinstante às 15:08 | link do post

Segunda-feira, 23.07.12

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen



publicado por omeuinstante às 09:11 | link do post

Domingo, 01.07.12

Este é o tempo

Este é o tempo 

Da selva mais obscura 

 

Até o ar azul se tornou grades 

E a luz do sol se tornou impura 

 

Esta é a noite 

Densa de chacais 

Pesada de amargura 

 

Este é o tempo em que os homens renunciam. 

Sophia de Mello Breyner, Mar Novo (1958) 



publicado por omeuinstante às 14:51 | link do post

Terça-feira, 26.06.12

Hoje o dia foi de pegadas impressas sob o rumor do sol. Um dia luminosamente claro, perfeito para folhear Sophia, junto ao mar, e reter vagarosas saudades. 

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos
Musa ensina-me o canto

Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar

O teu súbito falar
que me foge de repente.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética III, Caminho, pág. 168

 



publicado por omeuinstante às 21:33 | link do post

Sábado, 19.05.12

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen 



publicado por omeuinstante às 14:19 | link do post

Sexta-feira, 04.05.12

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen



publicado por omeuinstante às 14:16 | link do post

Domingo, 18.12.11

 

Cada dia é mais evidente que partimos

 

Sem nenhum possível regresso no que fomos,

 

Cada dia as horas se despem mais do alimento:

 

Não há saudades nem terror que baste.

  

Sophia de Mello Breyner Andresen




publicado por omeuinstante às 10:06 | link do post

Sábado, 17.12.11

Eu contarei a beleza das estátuas -

Seus gestos imóveis ordenados e frios -

E falarei do rosto dos navios

 

Sem que ninguém desvende outros segredos

Que nos meus braços correm como rios

E enchem de sangue a ponta dos meus dedos.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, No tempo divivido (1954)




publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Quarta-feira, 09.11.11

Chamo-te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen



publicado por omeuinstante às 14:01 | link do post

Sexta-feira, 28.10.11

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética



publicado por omeuinstante às 09:00 | link do post

Quarta-feira, 19.10.11

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen



publicado por omeuinstante às 12:00 | link do post

Quinta-feira, 06.10.11

Em Sophia, há o mar. Como casa. E lugar de nascimento do ser.

Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.

 

 

 



 



publicado por omeuinstante às 15:00 | link do post

Hoje o dia é para a Sophia. Mais as suas belas metáforas. 

 

O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum
mercado negro
Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde se desune e se reúne
E esta é a dança do ser.


O Minotauro



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Terça-feira, 19.07.11

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda

 

Sophia de Mello Breyner Andresen



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Terça-feira, 12.07.11

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

 



publicado por omeuinstante às 11:58 | link do post

Quarta-feira, 29.06.11

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Quinta-feira, 02.06.11

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner



publicado por omeuinstante às 10:03 | link do post

Sábado, 21.05.11

 Casa

 

Permanece  presente como um reino

E atravessa meus sonhos como um rio

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra poética, III, Caminho, p. 53

 

 The River Bennecourt, Monet




publicado por omeuinstante às 14:21 | link do post

Quarta-feira, 06.04.11

Instante

 

Deixai-me limpo

O ar dos quartos 

E liso

O branco das paredes

Deixai-me com as coisas

Fundadas no silêncio.

 

 Sophia de Mello Breyner Andresen


 



publicado por omeuinstante às 10:11 | link do post

Domingo, 20.03.11

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen



publicado por omeuinstante às 11:56 | link do post

Segunda-feira, 20.12.10

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

 

 




publicado por omeuinstante às 17:00 | link do post

Quinta-feira, 09.12.10

Em nome da tua ausência

Construí com loucura uma grande casa branca

E ao longo das paredes te chorei



Sophia de Mello Breyner Andresen



publicado por omeuinstante às 17:37 | link do post

Segunda-feira, 22.11.10

Bebido o luar, ébrios de horizontes,

Julgamos que viver era abraçar

O rumor dos pinhais, o azul dos montes

E todos os jardins verdes do mar.


Mas solitários somos e passamos,

Não são nossos os frutos nem as flores,

O céu e o mar apagam-se exteriores

E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

 

Por que jardins que nós não colheremos,

Límpidos nas auroras a nascer,

Por que o céu e o mar se não seremos

Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen




publicado por omeuinstante às 10:48 | link do post

Sexta-feira, 10.09.10

Pudesse Eu

Pudesse eu não ter laços
nem limites

Ó vida de mil faces
transbordantes

Para poder responder
aos teus convites

Suspensos na surpresa
dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia, 1944




publicado por omeuinstante às 12:00 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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