Quinta-feira, 24.05.12

Tu me deste a Palavra, a noz do fogo
Se o miolo te ficou tenho os dedos queimados.
Dá Deus nozes, Senhor... Sem dentes, desde logo,
Teu Banquete revolta os desdentados.

O Pão esperou na Voz fome e saliva
Ninguém comeu senão da própria suficiência:
Ao menos o Menino tem gengiva,
Saboreia a inocência.

Tende piedade dos Críticos,
Dai-lhes o Best-Seller
Engrossarão o seu coro.
Tudo o que for Sentido - desterrado
E oculto no choro!

Fazei guardar por anjos
A Significação
E em nossa carne eles tenham
Ceva e consolação.
À entrada do Verbo, imo da Morte,
Ponde uma folha a espada:
Guardaremos a Vida e o sangue ao Norte
Do Nada

 

Vitorino Nemésio 



publicado por omeuinstante às 11:00 | link do post

Sábado, 10.09.11

Vitorino Nemésio (1901-1978) ensaísta, escritor e poeta, vai ser homenageado no Centro Cultural de Belém, no dia 18 de Setembro, a partir das 15 horas.

Oportunidade para acordar a memória, ao sabor de re-leituras que o tempo guardou; através da obra poética, e, se bem me lembro, do romance Mau Tempo no Canal. 

 

Quando penso no mar

A linha do horizonte é um fio de asas

E o corpo das águas é luar;

 

De puro esforço, as velas são memória

E o porto e as casas

Uma ruga de areia transitória.

 

Sinto a terra na força dos meus pulsos:

O mais  mar, que o remo indica,

E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

 

Eu, ali, uma coisa imaginada

Que o eterno pica,

 Vou na onda, de tempo carregada,

 

E desenrolo:

Sou movimento e terra delineada,

Impulso e sal de pólo a pólo.

 

Quando penso no mar, o mar regressa

A certa forma que só teve em mim –

Que onde ele acaba, o coração começa.

 

Começa pelo aro das estrelas

A compasso retido em mente pura

E avivado nos vidros das janelas.

 

Começa pelo peito das baías

Ao rosar-se e crescer na madrugada

Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

 

E, de assim começar, é abstracto e imenso:

Frio como a evidência ponderada,

Quente como uma lágrima num lenço.

 

Coração começado pelos peixes,

És o golfo de todo o esquecimento

Na mínima lembrança que me deixes,

 

E a Rosa dos Ventos baralhada:

Meu coração, lágrima inchada,

Mais de metade pensamento.


 



publicado por omeuinstante às 17:55 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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