Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010


Fotografia de Fernando Ribeiro (2010) Chaves

 

Há na memória um rio onde navegam 
Os barcos da infância, em arcadas 
De ramos inquietos que despregam 
Sobre as águas as folhas recurvadas. 

Há um bater de remos compassado 
No silêncio da lisa madrugada, 
Ondas brancas se afastam para o lado 
Com o rumor da seda amarrotada. 

Há um nascer do sol no sítio exacto, 
À hora que mais conta duma vida, 
Um acordar dos olhos e do tacto, 
Um ansiar de sede inextinguida. 

Há um retrato de água e de quebranto 
Que do fundo rompeu desta memória, 
E tudo quanto é rio abre no canto 
Que conta do retrato a velha história. 



 

Saramago, Retrato do Poeta quando Jovem, in Os Poemas Possíveis, Caminho, Lisboa, 1981, 3ª edição



publicado por omeuinstante às 14:06 | link do post

3 comentários:
De lucas a 2 de Dezembro de 2010 às 14:24
É um post muito belo, Mceu.


De Cláudia a 2 de Dezembro de 2010 às 15:11
Há que se divagar sobre a exposição, nem sempre imagens correspondem a inserção.


De anamar a 2 de Dezembro de 2010 às 17:20
Bela imagem que acompanha a sua nostalgia das origens: "De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvada"!


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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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