Domingo, 18 de Setembro de 2011

Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.

Herberto Helder



publicado por omeuinstante às 19:05 | link do post

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas! 

Miguel Torga, Cântico do Homem
 

Dies Irae -  Dias da Ira, título de um hino do século XIII escrito por Tomás de Celano.


 



publicado por omeuinstante às 12:30 | link do post

Sábado, 17 de Setembro de 2011

Se há aqui excesso de nomes e referências, sejam eles tomados como montagem, concebida num apoio cultural estilisticamente irónico.

 

Herberto Helder



publicado por omeuinstante às 23:00 | link do post

Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

Celebrar o nascimento de Bocage, em verso,  atraves do seu auto-retrato.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.



publicado por omeuinstante às 17:41 | link do post

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011


publicado por omeuinstante às 21:00 | link do post

Sob o eu que age há pequenos eus que contemplam (...).

Deleuze, Diferença e repetição 



publicado por omeuinstante às 19:00 | link do post

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade



publicado por omeuinstante às 10:09 | link do post

Terça-feira, 13 de Setembro de 2011


publicado por omeuinstante às 21:00 | link do post

Por enquanto o frenesim domina […] Mas a escrita é a última possibilidade de fuga, a respiração ainda. Porque nós estamos cerrados, ameaçados de esmagamento, de emparedamento e de asfixia. […] Temos de minar a língua para que ela se abra e nos abra. […] Deixemos falar os senhores, os que sabem, os que querem dominar. Nós não sabemos mas, na nossa ignorância, sentimos o apelo urgente de um começo, que é o núcleo do silêncio e da palavra. […] Sim, podemos libertar-nos se soubermos a palavra viva que dá voz ao habitante secreto e primordial do nosso corpo, alguém que é ninguém, ninguém que é alguém, sempre ausente mas vivo nas nossas células, na submersa nascente que inaugura o mundo.


António Ramos Rosa, in Prosas seguidas de Diálogos

 



publicado por omeuinstante às 12:58 | link do post

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011


publicado por omeuinstante às 20:57 | link do post

Na vida não há aulas para principiantes, exigem-nos logo o mais difícil.

Rainer Rilke 



publicado por omeuinstante às 14:12 | link do post

Domingo, 11 de Setembro de 2011

 Uma máscara não é, principalmente, aquilo que representa, mas aquilo que transforma, isto é: que escolhe não representar.

 

Claude Lévi-Strauss 



publicado por omeuinstante às 10:33 | link do post

Sábado, 10 de Setembro de 2011


publicado por omeuinstante às 21:00 | link do post

Vitorino Nemésio (1901-1978) ensaísta, escritor e poeta, vai ser homenageado no Centro Cultural de Belém, no dia 18 de Setembro, a partir das 15 horas.

Oportunidade para acordar a memória, ao sabor de re-leituras que o tempo guardou; através da obra poética, e, se bem me lembro, do romance Mau Tempo no Canal. 

 

Quando penso no mar

A linha do horizonte é um fio de asas

E o corpo das águas é luar;

 

De puro esforço, as velas são memória

E o porto e as casas

Uma ruga de areia transitória.

 

Sinto a terra na força dos meus pulsos:

O mais  mar, que o remo indica,

E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

 

Eu, ali, uma coisa imaginada

Que o eterno pica,

 Vou na onda, de tempo carregada,

 

E desenrolo:

Sou movimento e terra delineada,

Impulso e sal de pólo a pólo.

 

Quando penso no mar, o mar regressa

A certa forma que só teve em mim –

Que onde ele acaba, o coração começa.

 

Começa pelo aro das estrelas

A compasso retido em mente pura

E avivado nos vidros das janelas.

 

Começa pelo peito das baías

Ao rosar-se e crescer na madrugada

Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

 

E, de assim começar, é abstracto e imenso:

Frio como a evidência ponderada,

Quente como uma lágrima num lenço.

 

Coração começado pelos peixes,

És o golfo de todo o esquecimento

Na mínima lembrança que me deixes,

 

E a Rosa dos Ventos baralhada:

Meu coração, lágrima inchada,

Mais de metade pensamento.


 



publicado por omeuinstante às 17:55 | link do post

Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011


publicado por omeuinstante às 21:36 | link do post

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

Sófocles, poeta trágico grego (496 - 406 a.C) , traduz nas suas obras uma profunda reflexão sobre a condição humana eternizada através das suas personagens. Penso em Antígona, revisitando o belo poema escrito há mais de vinte e cinco séculos e, no entanto, com uma mensagem intensamente actual. Fala-nos de questões existenciais, daquelas que questionam o sentido da vida num horizonte de finitude e temporalidade. Uma personagem e um poema que se colam ao Ser.

 

De entre as muitas maravilhas do mundo, nenhuma

É comparável ao Homem.
Percorre o mar encrespado pelo vento sul,

Cruza o abismo bramante das vagas,

Atormenta a Mãe dos deuses, a Terra Soberana,

A Imortal, a Inesgotável,
Ano após ano a revolve 
Rasgando sulcos ao ritmo lento das suas mulas.

Os animais emplumados e ligeiros,
As feras selvagens e os habitantes do mar,

A todos captura nas malhas das suas redes,

Este inventor de manhas e ardis!
Atrai às suas armadilhas a caça grossa dos montes,
subjuga e doma o dorso áspero do corcel,

Põe canga no poderoso touro dos montes.
Inventou a palavra, o ágil pensamento,

As leis e os costumes,

Aprendeu a abrigar-se dos grandes frios e das chuvas.
Génio universal que nada surpreende,

Só da morte não ilude a hora certa,

Ainda que por vezes tenha sabido retardá-la.
Senhor de uma inteligência assaz fecunda,

É seduzido tanto pelo bem como pelo mal,

Combinando a justiça eterna e as leis da Terra.
Mesmo o mais poderoso governante é banido da cidade
Se, na sua criminosa audácia, se insurge contra a lei.
Esse, perverso, não terá jamais lugar
Nem no meu lar, nem no meu coração.

 

 



publicado por omeuinstante às 18:36 | link do post

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.

Eugénio de Andrade.



publicado por omeuinstante às 10:03 | link do post

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

O homem, nascido da mulher, vive um breve tempo repleto de inquietações, como uma flor desabrochando e logo murcha, e foge como uma sombra.

Livro de Job, in A Arte de Ler, Shopenhauer 



publicado por omeuinstante às 18:22 | link do post

Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Fernando Pessoa, Pastor Amoroso  



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Terça-feira, 6 de Setembro de 2011


publicado por omeuinstante às 21:26 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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