Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
Herberto Helder
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Miguel Torga, Cântico do Homem
Dies Irae - Dias da Ira, título de um hino do século XIII escrito por Tomás de Celano.
Se há aqui excesso de nomes e referências, sejam eles tomados como montagem, concebida num apoio cultural estilisticamente irónico.
Herberto Helder
Celebrar o nascimento de Bocage, em verso, atraves do seu auto-retrato.
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.
Sob o eu que age há pequenos eus que contemplam (...).
Deleuze, Diferença e repetição
Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.
Eugénio de Andrade
Por enquanto o frenesim domina […] Mas a escrita é a última possibilidade de fuga, a respiração ainda. Porque nós estamos cerrados, ameaçados de esmagamento, de emparedamento e de asfixia. […] Temos de minar a língua para que ela se abra e nos abra. […] Deixemos falar os senhores, os que sabem, os que querem dominar. Nós não sabemos mas, na nossa ignorância, sentimos o apelo urgente de um começo, que é o núcleo do silêncio e da palavra. […] Sim, podemos libertar-nos se soubermos a palavra viva que dá voz ao habitante secreto e primordial do nosso corpo, alguém que é ninguém, ninguém que é alguém, sempre ausente mas vivo nas nossas células, na submersa nascente que inaugura o mundo.
António Ramos Rosa, in Prosas seguidas de Diálogos
Na vida não há aulas para principiantes, exigem-nos logo o mais difícil.
Rainer Rilke
Uma máscara não é, principalmente, aquilo que representa, mas aquilo que transforma, isto é: que escolhe não representar.
Claude Lévi-Strauss
Vitorino Nemésio (1901-1978) ensaísta, escritor e poeta, vai ser homenageado no Centro Cultural de Belém, no dia 18 de Setembro, a partir das 15 horas.
Oportunidade para acordar a memória, ao sabor de re-leituras que o tempo guardou; através da obra poética, e, se bem me lembro, do romance Mau Tempo no Canal.
Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;
De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.
Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.
Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,
E desenrolo:
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de pólo a pólo.
Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim –
Que onde ele acaba, o coração começa.
Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.
Começa pelo peito das baías
Ao rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.
E, de assim começar, é abstracto e imenso:
Frio como a evidência ponderada,
Quente como uma lágrima num lenço.
Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na mínima lembrança que me deixes,
E a Rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.
Sófocles, poeta trágico grego (496 - 406 a.C) , traduz nas suas obras uma profunda reflexão sobre a condição humana eternizada através das suas personagens. Penso em Antígona, revisitando o belo poema escrito há mais de vinte e cinco séculos e, no entanto, com uma mensagem intensamente actual. Fala-nos de questões existenciais, daquelas que questionam o sentido da vida num horizonte de finitude e temporalidade. Uma personagem e um poema que se colam ao Ser.
De entre as muitas maravilhas do mundo, nenhuma
É comparável ao Homem.
Percorre o mar encrespado pelo vento sul,
Cruza o abismo bramante das vagas,
Atormenta a Mãe dos deuses, a Terra Soberana,
A Imortal, a Inesgotável,
Ano após ano a revolve
Rasgando sulcos ao ritmo lento das suas mulas.
Os animais emplumados e ligeiros,
As feras selvagens e os habitantes do mar,
A todos captura nas malhas das suas redes,
Este inventor de manhas e ardis!
Atrai às suas armadilhas a caça grossa dos montes,
subjuga e doma o dorso áspero do corcel,
Põe canga no poderoso touro dos montes.
Inventou a palavra, o ágil pensamento,
As leis e os costumes,
Aprendeu a abrigar-se dos grandes frios e das chuvas.
Génio universal que nada surpreende,
Só da morte não ilude a hora certa,
Ainda que por vezes tenha sabido retardá-la.
Senhor de uma inteligência assaz fecunda,
É seduzido tanto pelo bem como pelo mal,
Combinando a justiça eterna e as leis da Terra.
Mesmo o mais poderoso governante é banido da cidade
Se, na sua criminosa audácia, se insurge contra a lei.
Esse, perverso, não terá jamais lugar
Nem no meu lar, nem no meu coração.
E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
oiço a música das tuas.
Eugénio de Andrade.
O homem, nascido da mulher, vive um breve tempo repleto de inquietações, como uma flor desabrochando e logo murcha, e foge como uma sombra.
Livro de Job, in A Arte de Ler, Shopenhauer
Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.
Fernando Pessoa, Pastor Amoroso
Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
sophia de mello breyner andresen