Sabe-se. A economia cegou e engoliu o espaço da política e a turbulência cai, erradamente, nas costas da democracia. É urgente a reflexão sobre o político enquanto processo vibrante de posições antagónicas.
Hoje em dia a questão crucial é a de como estabelecer uma nova fronteira política, capaz de dar um verdadeiro impulso à democracia.
Segundo creio, isto exige a redefinição da esquerda como um horizonte em que as muitas lutas diferentes contra a sujeição possam encontrar um espaço de filiação. A noção de uma cidadania democrática radical revela-se fundamental, porque é susceptível de facultar uma forma de identificação que permita o estabelecimento de uma identidade política comum entre várias lutas democráticas.
Chantal Mouffe, O Regresso do Político, Gradiva.
Hoje recordei um episódio lido há tempos numa incursão feita ao campo da argumentação. A pedido da rainha Cristina da Suécia ocorreu em Roma, em 1674, um debate sobre a condição humana.
Perguntava-se:
O que seria mais razoável: o riso de Demócrito, que de tudo zombava, ou o pranto de Heraclito, que por tudo chorava?
Rumores em lenta sedimentação.
[O sentido] é um estado constante de fluxo -até que ele possa emergir como língua pura da harmonia de todos os vários modos de intencionar. .. Se essas línguas continuam a crescer dessa maneira até o fim de seu tempo, é a tradução que ateia fogo na vida eterna das obras e no perpétuo renovar da linguagem. A tradução continua a colocar o crescimento esvaziado das línguas à prova: quão distanciado está o seu significado oculto da revelação, quão pr6ximo ele pode ser trazido pela consciência dessa distância.
Walter Benjamin, A tarefa do tradutor
Luís Archer (1929-2011), padre de coração, cientista de profissão, morre, hoje, aos 85 anos. Jesuíta e biólogo, foi pioneiro da investigação genética molecular.
Une dois mundos, ciência e Religião.
A ideia é que o homem é uma coisa mecânica e que podemos criar uma espécie melhor, com uma programação informática em vez do cérebro, etc. E o homem acabará com sentimentos e afectos, e será reduzido a reacções químicas e a potenciais eléctrodos que podem ser inseridos no indivíduo. Será uma nova espécie e o homem acaba. Há livros do [Francis] Fukuyama que falam no último homem que existirá na Terra e os [que virão a seguir] são seres pós-humanos.
Extracto de uma entrevista de 2006
Há mulheres intensas na sua desafiante inquietude. A Isabel Xavier está entre elas. Em 2002 publica Catedral, livro de poemas onde se abrem itinerários de imenso sabor; e sabedoria.
Um belo livro de amor dito, pleno de arte de sentir o conhecimento. Para ler em passo lento, como quem caminha em terra estranha.
Capa e ilustrações do pintor Carlos Aurélio.
Eternidade
A eternidade que o tempo contempla
Do olhar da esfinge se desprende
Metade humana outra metade lembra
A metade divina que se estende
Pelas águas do Nilo que em seu leito afoga
A penumbra mansa que seu sonho oculta
Ou pela areia do deserto onde se goza
O desterro de uma morte já adulta
E de tanto que viveu em morte sua
Seu segredo se assemelha à água clara
Do rio de prata que à noite solta a lua
Quando a alma se arrepia e se amortalha
Metade de Deus aqui a pressentimos
Já profana, distante, efémera e pouca
Trajecto que além nós, nós prosseguimos
Grito de dor da nossa voz já rouca
Volta de novo metade luz tão pura
A iluminar a terra ressentida
Metade sombra, clareira escura
Certeza em nós da verdadeira vida.
(Parabéns, Isabel! Obrigada.)
Em Sophia, há o mar. Como casa. E lugar de nascimento do ser.
Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.
Hoje o dia é para a Sophia. Mais as suas belas metáforas.
O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum
mercado negro
Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde se desune e se reúne
E esta é a dança do ser.
O Minotauro
Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária
aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.
Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar
Subitamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.
Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência
Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.
Natália Correia, O Vinho e a Lira (1969)
Da leitura da Porta Giratória de Mario Quintana.
Não é possível amizade quando dois silêncios não se combinam.
Woody Allen, de novo. Meia-noite em Paris é um filme cuja leveza magistral nos transporta até às profundezas do ser que habita em cada um de nós, em cada Tempo.
Neste delírio estético encontramo-nos com Hemingway, Scott Fitzgerald, Buñuel, Picasso, Toulouse Lautrec, Dali e tantos outros que fazem crer a Gil- alter-ego de Allen-, que a vivência do passado é sempre superior à do presente. A lição está aqui. O filme mostra que a epopeia de cada um de nós assenta no presente. Sem presente não há passado; ele é a própria época de ouro. E depois há o jazz . E Paris - museu ao ar livre, em movimento- como pano de fundo nesta fascinante viagem. Neste filme, a vida é superior à arte.
Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (...) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é.
Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada
Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
sophia de mello breyner andresen