Era uma folha pousada
no cotovelo do vento;
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.
Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida ficava
escrava do teu juramento.
Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!
David Mourão-Ferreira, Obra Poética, 1948-1988, Editorial Presença, 2006, p. 109
Belo texto de Frei Bento Domingues, hoje, no Público.
(...)
Se a poesia é a única prova concreta da existência do ser humano como humano, a música é a alma de toda a poesia, presente, aliás, no ritmo de todas as artes que verdadeiramente o sejam. Como linguagem suprema da transcedência humana, rasga o tecto do mundo, expõe-se ao sopro divino, religação do céu e da terra.
M. S. Lourenço sustenta, nos Degraus do Parnaso, que a literatura, entendida como incluindo a poesia e a prosa, tem a tarefa de nos levar até à fronteira do inexprimivel. Para ele, o problema subjacente consiste em que a linguagem, de que a literatura é a arte (no sentido em que a música é a arte do som), funciona dentro de limites que não podem ser ultrapassados. Isto leva a que a linguagem não seja capaz de representar completamente todo o âmbito da experiência. Existe, assim, uma parte da experiência que não é representável linguisticamente, logo literalmente.
Este poeta chama inexprimivel a este domínio da experiência linguisticamente inacessível. A grandeza relativa da arte da linguagem pode, justamente, medir-se pela sua capacidade de levar o leitor à intuição desse domínio, embora dele não possa ser feita qualquer descrição. O verdadeiro artista é aquele que encontrou expressão simbólica da experiência transcendente.
Por este caminho, M. S. Lourenço colocou a questão das fronteiras entre a literatura e a religião. Tem defendido a ideia de que o oculto religioso não existe incondicionalmente e que a expressão da experiência religiosa é condicionada pela formulação literária que a descreve, uma vez que esta é o veículo da asserção religiosa. Neste sentido, uma doutrina religiosa é apenas tão verdadeira quanto o for a formula literária que a transmite.
(...)
A trama do último filme de Gus Van Sant Os Inquietos ( Restless), desenvolve-se através da visão do mundo de dois adolescentes que o acaso aproxima. O realizador dá-nos três personagens desassossegadas: Enoch- o jovem adolescente que gosta de frequentar funerais; o fantasma- um piloto kamikase da 2ª Guerra Mundial; Annabel- a jovem paciente que sofre de câncro e que estuda apaixonadamente Darwin. Além destas, há a Morte e há a Vida. É um filme que desfocaliza as angústia do quotidiano vivido para não as obnubilar, quando se constata que a certeza de morrer é a pele da incerteza do acontecimento.
Estamos perante um exercício reflexivo sobre as questões-limite com que o homem contemporâneo se depara, mas sente dificuldade em colocar num lugar certo, como a morte e o amor. Uma narrativa preenchida por delicadas brechas ao som dos Beatles e Nico.
Van Sant dá-nos um final belíssimo através do silêncio e com um sorriso. Um Final com abertura para o infinito, na certeza de que cada um de nós é o primeiro a morrer, como aprendemos com Ionesco.
A Fita corre no King. Obrigatório ver.
Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...
Miguel Torga, Diário XIII
A poesia (a arte) ilumina as sombras que nos rodeiam.
A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da Terra.
Carlos de Oliveira, Trabalho Poético.
Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo
ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
Eugénio de Andrade
Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.
Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra.
Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.
Luiza Neto Jorge
Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços,
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.
Ruy Cinatti
Não há normas. Todos os homens são excepções a uma regra que não existe.
Fernando Pessoa, Aforismos e Afins.
O homem que não possui a música em si mesmo,
Aquele a quem não emociona a suave harmonia dos sons,
Está maduro para a traição, o roubo, a perfídia,
Sua inteligência é morna como a noite,
Suas aspirações sombrias como o Erebo.
Desconfia de tal homem, escuta a música.
William Shakespeare
Heidegger dizia que as grandes questões filosóficas surgem quando estamos imersos no desespero, quando todo o peso quer desaparecer das coisas e todo o sentido se obscurece. Inquietações interrogativas.
Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores.
Alberto Caeiro
Meditação de um sábado repleto de trabalho: quanto mais fundo é o abismo, maior é a salvação.
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.
W.B.Yeats
Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. (...) A língua serve para expressar ideias; mas a língua corrente expressa apenas clichés e não ideias; por isso está morta e o que está morto não pode engendrar ideias.
João Guimarães Rosa, in Língua de Tradição e Língua técnica, Passagens.
O poeta e romancista italiano Cesare Pavese (1908-1950) escreveu A Lua e as Fogueiras poucos meses antes de se suicidar, em Turim, num quarto de hotel.
A narrativa gira à volta de um homem sem rosto que regressa à terra onde nasceu, revivendo o passado no presente.
É um livro sobre as origens, sobre a busca de identidade. Simples e belo.
Tantas vezes me havia imaginado encostado ao parapeito da ponte, a interrogar-me como fora possível passar tantos anos naquele buraco, naqueles caminhos, pastoreando a cabra e procurando maçãs caídas no fundo da ribeira, convencido de que o mundo terminava na curva onde a estrada descia até ao Belbo. (...)
Deste modo, durante muito tempo julguei que esta terra onde nasci fosse tudo o que havia no mundo. Agora que vi realmente o mundo e sei que é formado por tantas pequenas aldeias, não sei se em rapaz me enganava muito.
Cesare Pavese, A Lua e as Fogueiras, Colecção Mil Folhas, pp 7-8
Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
sophia de mello breyner andresen