Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

Era uma folha pousada

no cotovelo do vento;

e pairava, deslumbrada,

entre morte e movimento.

 

Era uma folha: lembrava,

de tão frágil, o momento

em que a vida ficava

escrava do teu juramento.

 

Era uma folha: mais nada.

Antes fosse esquecimento!

David Mourão-Ferreira, Obra Poética, 1948-1988, Editorial Presença, 2006, p. 109




publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Belo texto de Frei Bento Domingues, hoje, no Público.

(...)

Se a poesia é a única prova concreta da existência do ser humano como humano, a música é a alma de toda a poesia, presente, aliás, no ritmo de todas as artes que verdadeiramente o sejam. Como linguagem suprema da transcedência humana, rasga o tecto do mundo, expõe-se ao sopro divino, religação do céu e da terra.
 M. S. Lourenço sustenta, nos Degraus do Parnaso, que a literatura, entendida como incluindo a poesia e a prosa, tem a tarefa de nos levar até à fronteira do inexprimivel. Para ele, o problema subjacente consiste em que a linguagem, de que a literatura é a arte (no sentido em que a música é a arte do som), funciona dentro de limites que não podem ser ultrapassados. Isto leva a que a linguagem não seja capaz de representar completamente todo o âmbito da experiência. Existe, assim, uma parte da experiência que não é representável linguisticamente, logo literalmente.
 Este poeta chama inexprimivel a este domínio da experiência linguisticamente inacessível. A grandeza relativa da arte da linguagem pode, justamente, medir-se pela sua capacidade de levar o leitor à intuição desse domínio, embora dele não possa ser feita qualquer descrição. O verdadeiro artista é aquele que encontrou expressão simbólica da experiência transcendente.
 Por este caminho, M. S. Lourenço colocou a questão das fronteiras entre a literatura e a religião. Tem defendido a ideia de que o oculto religioso não existe incondicionalmente e que a expressão da experiência religiosa é condicionada pela formulação literária que a descreve, uma vez que esta é o veículo da asserção religiosa. Neste sentido, uma doutrina religiosa é apenas tão verdadeira quanto o for a formula literária que a transmite. 
(...) 



publicado por omeuinstante às 15:05 | link do post

A trama do último filme de Gus Van Sant Os Inquietos ( Restless), desenvolve-se através da visão do mundo de dois adolescentes que o acaso aproxima. O realizador dá-nos três personagens desassossegadas: Enoch- o jovem adolescente que gosta de frequentar funerais; o fantasma- um piloto kamikase da 2ª Guerra Mundial; Annabel- a jovem paciente que sofre de câncro e que estuda apaixonadamente Darwin. Além destas, há a Morte e há a Vida. É um filme que desfocaliza as angústia do quotidiano vivido para não as obnubilar, quando se constata que a certeza de morrer é a pele da incerteza do acontecimento.

Estamos perante um exercício reflexivo sobre as questões-limite com que o homem contemporâneo se depara, mas sente dificuldade em colocar num lugar certo, como a morte e o amor. Uma narrativa preenchida por delicadas brechas ao som dos Beatles e Nico.
Van Sant dá-nos um final belíssimo através do silêncio e com um sorriso. Um Final com abertura para o infinito, na certeza de que cada um de nós é o primeiro a morrer, como aprendemos com Ionesco.

A Fita corre no King. Obrigatório ver.



publicado por omeuinstante às 12:45 | link do post

Sábado, 10 de Dezembro de 2011


publicado por omeuinstante às 20:30 | link do post

Não tenhas medo, ouve:

É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...                                                                                                                                                                                              

Miguel Torga, Diário XIII                                                               



publicado por omeuinstante às 17:00 | link do post

A poesia (a arte) ilumina as sombras que nos rodeiam.

A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da Terra.

 

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético.

 



publicado por omeuinstante às 10:11 | link do post

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011


publicado por omeuinstante às 20:00 | link do post

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo 
ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar? 

 

Eugénio de Andrade



publicado por omeuinstante às 17:49 | link do post

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra.

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

Luiza Neto Jorge



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços,
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti



publicado por omeuinstante às 17:00 | link do post

Não há normas. Todos os homens são excepções a uma regra que não existe.

Fernando Pessoa, Aforismos e Afins.



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

O homem que não possui a música em si mesmo,
Aquele a quem não emociona a suave harmonia dos sons,
Está maduro para a traição, o roubo, a perfídia,
Sua inteligência é morna como a noite,
Suas aspirações sombrias como o Erebo.
Desconfia de tal homem, escuta a música.


William Shakespeare



publicado por omeuinstante às 16:30 | link do post

Heidegger dizia que as grandes questões filosóficas surgem quando estamos imersos no desespero, quando todo o peso quer desaparecer das coisas e todo o sentido se obscurece. Inquietações interrogativas.




publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Domingo, 4 de Dezembro de 2011


publicado por omeuinstante às 20:00 | link do post

Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores.


Alberto Caeiro



publicado por omeuinstante às 12:15 | link do post

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Meditação de um sábado repleto de trabalho: quanto mais fundo é o abismo, maior é a salvação.



publicado por omeuinstante às 14:49 | link do post

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


W.B.Yeats



publicado por omeuinstante às 10:02 | link do post

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011


publicado por omeuinstante às 20:06 | link do post

Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. (...) A língua serve para expressar ideias; mas a língua corrente expressa apenas clichés e não ideias; por isso está morta e o que está morto não pode engendrar ideias.

 

João Guimarães Rosa, in Língua de Tradição e Língua técnica, Passagens.



publicado por omeuinstante às 13:00 | link do post

O poeta e romancista italiano Cesare Pavese (1908-1950) escreveu A Lua e as Fogueiras poucos meses antes de se suicidar, em Turim, num quarto de hotel.  

A narrativa gira à volta de um homem sem rosto que regressa à terra onde nasceu, revivendo o passado no presente. 

É um livro sobre as origens, sobre a busca de identidade. Simples e belo. 

 

Tantas vezes me havia imaginado encostado ao parapeito da ponte, a interrogar-me como fora possível passar tantos anos naquele buraco, naqueles caminhos, pastoreando a cabra e procurando maçãs caídas no fundo da ribeira, convencido de que o mundo terminava na curva onde a estrada descia até ao Belbo. (...)
Deste modo, durante muito tempo julguei que esta terra onde nasci fosse tudo o que havia no mundo. Agora que vi realmente o mundo e sei que é formado por tantas pequenas aldeias, não sei se em rapaz me enganava muito.

 Cesare Pavese, A Lua e as Fogueiras, Colecção Mil Folhas, pp 7-8 



publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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