Porque o Homem faz-se Tempo, na memória dos dias:
Os dias talvez sejam iguais para um relógio mas não para um homem.
Marcel Proust
Kant considera que o homem tem a oportunidade de ser feliz quando aproxima o seu querer do dever. Assim nasce, para o filósofo de Königsberg, o homem como criador, uma vez que no mundo da liberdade o homem é o criador das próprias leis. Enquanto releio Oscar Wilde, De Profundis, sinto que o arco do pensamento os une através desta passagem: ser inteiramente livre e ao mesmo tempo inteiramente dominado pela lei, é o eterno paradoxo da vida humana de que nos apercebemos a todo o momento.
Deixem passar...
Havia sentinelas a guardar
A fronteira do sonho proibido.
Mas ergui, atrevido,
A voz de sonhador,
E passei
Como um rei,
Sem dar mostras do íntimo terror.
E cá vou a passar,
aterrado e sozinho,
A lembrar
O santo-e-senha com que abri caminho...
Miguel Torga, 1973
Ninguém ignora que a poesia é uma solidão espantosa, uma maldição de nascença, uma doença da alma.
Jean Cocteau
Sócrates foi um dos primeiros filósofos a introduzir a questão das condicionantes da acção humana. Na sua opinião, o corpo impede-nos de praticar a verdade; de sermos agentes livres.
No Fédon, Sócrates-Platão, diz: enquanto possuirmos um corpo e a nossa alma estiver reunida a este mau companheiro jamais possuiremos o objecto dos nossos desejos, que afirmamos ser verdade.
Deste ponto de vista, as emoções e as paixões são consideradas condicionantes da acção humana.
Uma forma inovadora de gerir a crise... crises.
Aqui.
O que vamos sabendo do Universo. A cores.
Folheando Homens Domésticos-Homens Selvagens, relembro que não há bom futuro sem inquietação no presente.
O autor da obra, Serge Moscovici, cita John Milton na página 38:
Não conhecer pormenorizadamente as coisas afastadas de nós
obscuras e subtis, mas conhecer
O que se encontra à nossa frente na
vida quotidiana,
É a sabedoria primordial; tudo o mais
é fumo.
ou vacuidade, ou tola impertinência,
E deixa-nos, nas coisas que mais nos
pertencem,
sem prática, sem preparação e sempre procurando.
Freud ensinou a escavar as ruínas da nossa história pessoal, prática que como método dá acesso a nós próprios e, sabemos, desperta o recalcamento.
Quando Norbert Hanold encontrou o baixo-relevo, não se lembrou de que, quando era pequeno, já tinha visto os pés da amiguinha numa posição semelhante, não se lembrou de nada, embora tudo o que a escultura causou nele derivasse desse elo.
Freud, Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen, Gradiva, p.66
Ninguém ouve a canção, mas o ribeiro canta!
Canta, porque um alegre deus o acompanha!
Quantos mais tombos, mais a voz levanta!
Canta, porque vem limpo da montanha!
Espelho do céu, é quanto mais partido
Que mais imagens tem da grande altura.
E quebra-se a cantar, enternecido
De regar a paisagem de frescura.
Água impoluta da nascente,
És a pura poesia
Que se dá de presente
Às arestas da humana penedia..."
Miguel Torga, Odes.
Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia,
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.
Alexandre O´Neill, Poesias Completas
De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Cecilia Meireles
A Gradiva de Jensen é um romance do escritor alemão Wilhem Jensen, publicado em 1903. É uma obra de leitura obrigatória tendo em conta a influência que exerceu na cultura europeia, em particular no movimento surrealista.
O romance narra as aventuras de um jovem arqueólogo alemão Norbert Hanold, obcecado pela imagem da jovem esculpida no baixo-relevo descrita no post anterior. Tendo o sonho como meio, Hanold desperta em Pompeia, cidade soterrada pela erupção do Vesúvio, no ano 79 d.C. De forma não linear, percebe-se que Gradiva- a mulher de mármore, dá lugar a Zoe-nome que significa vida-, um amor de infância.
Freud encontra neste romance terreno fértil para escavar e construir os caminhos que o tornaram conhecido, o delírio, a fantasia, o sonho e o despertar do erotismo adormecido- os processos de recalcamento. E assim, em 1907, Freud publica Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen, texto pioneiro no campo da interpretação psicanalítica da literatura.
A leitura do livro de Freud, Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen-publicação da Gradiva-, mais o fascínio que sinto pela etimologia das palavras, preencheram os últimos dias em pesquisas sobre o significado do termo Gradiva. Recuperando o sentido primeiro, em latim, significa aquela que avança.
Logo nas primeiras voltas, somos transportados para o museu Chiaromonti, no Vaticano, onde podemos contemplar um belo pedaço das Aglaurides - A Gradiva- baixo relevo do século II, representando uma jovem que levanta as vestes enquanto dança. Ainda na recuperação do sentido primordial do termo, encontramos a figura do deus romano Marte, Mars Gradivus- Marte que avança.

Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
sophia de mello breyner andresen