Os teus olhos são dias bonitos.
Kha Tembe
A cultura pós-moderna representa o pólo "superestrutural" de uma sociedade que sai de um tipo de organização uniforme, dirigista, e que, para o fazer, mistura os últimos valores modernos, reabilita o passado e a tradição, revaloriza o local e a vida simples, dissolve a preeminência da centralidade, dissemina os critérios da verdade e da arte, legitima a afirmação da identidade pessoal de acordo com os valores de uma sociedade personalizada onde o que importa é que o indivíduo seja ele próprio, e onde tudo e todos têm, portanto, direito de cidade e a serem socialmente reconhecidos, sendo que nada deve doravante impor-se imperativa e duradouramente, e todas as opções, todos os níveis, podem coabitar sem contracção nem relegação. A cultura pós-moderna é descentrada e heteróclita, materialista e psi, porno e discreta, inovadora e rétro, consumista e ecologista, sofisticada e espontânea, espectacular e criativa; e o futuro não terá, sem dúvida, que decidir em favor de uma destas tendências, mas, pelo contrário, desenvolverá as lógicas duais, a co-presença flexível das antinomias.
Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio
Volta o teu rosto sempre na direção do sol, e então, as sombras ficarão para trás.
Sabedoria Oriental
A retórica é insubstituível. Não o fosse, há muito tempo teria sido substituída. Por certo enseja abusos; por certo às vezes permite o triunfo da habilidade sobre o justo direito; mas às vezes não significa sempre, e não se pode condenar o uso pelo abuso.
Olivier Reboul, Introdução à Retórica.
Só é lento quem vai mais devagar que aquilo que deseja.
Pedro Tamen
É no Homem que o Universo morde a cauda.
João Carlos Silva, Também Aqui Moram Os Deuses, Chiado Editora
No teu amor por mim há uma rua que começa.
Ruy Belo
Na Segunda Guerra Mundial, sob o falso manto do voluntariado, o Japão recrutou pilotos suicidas na elite universitária do país. Embora " os voluntários" tivessem sido adestrados para morrer, deixaram escritos- cartas a familiares- onde estão gravadas as perplexidades, as dúvidas e medos da sua condição de Kamikase.
Os soldados-estudantes- os tokkõtai-, foram constituídos em Outubro de 1944 pelo vice-almirante Onishishi Takijiro com o proprósito de eliminar os porta-aviões americanos. Eram soldados treinados não tanto para matar, mas para morrer pela pátria.
O livro da americana Emiko Ohnuki-Tierney, Kamikase Diaries: Reflections of Japanese Student Soldiers, corrige a História e desvela a face, não sorridente, do sentir dos homens concretos.
No Diário de Hayashi Tadao, pode ler-se:
1 de Janeiro de 1944- Talvez o que nos espera seja uma funda desilusão e, para a nossa sociedade, uma anarquia insidiosa. Sonho em alongar-me sobre as ondas do mar num dia ensolarado de primavera para me intoxicar com pensamentos soltos enquanto o meu corpo se solta à deriva na água... De repente, vem -me à mente uma cena de Casa dos Mortos- no entardecer de um dia de verão de céu esbranquiçado, os prisioneiros são empurrados para dentro das celas.
Vivo na solidão.
8 de Maio- O individualismo não é um mero "ismo", mas um princípio inato do ser humano. Realmente odeio os militares (...)
14 de Julho- Hoje encerro o meu diário, fruto da minha empobrecida vida espiritual. Eu, confusão e anarquia, estou reduzido a isso. O que me atrai são questões sobre a natureza da sociedade moderna. Neste diário eu expus as minhas fraquezas. Este misérable humano na sua totalidade está aqui retratado. Escrever o diário foi uma forma de encontrar algum sentido para mim.
O que desejaria, para mim, é andar pelas ruas de Moscou com uma boina na cabeça, estudar economia e política internacional numa Bibliothek alemã ou envolver-me numa análise teórica dos rumos a serem tomados pelo Japão. Se eu viver, é o que farei. Se eu morrer, terá sido um mero sonho. Gostaria de pensar neste diário como o primeiro capítulo do registo de um ser humano que tinha um grande sonho, mas que não encontrou uma solução. Tentei como pude realizar este sonho. Fim.
Hayashi Tadao morre no dia 28 de Julho, aos 24 anos, já depois da rendição aos americanos. O seu avião explodiu numa noite enluarada.
( Síntese a partir da leitura da Revista Piauí, 61, Outubro de 2011)
Há sempre na vigia uma ilha que oscila
entre a gola do Mar e o turbante do céu
Mas de todas somente a que se chama Ítaca
parece a rapariga à espera de eu ser eu
David Mourão-Ferreira, Obra Poética, Presença, p.210
À beira de um rio caminha nervosamente um escorpião que procura passar para a outra margem. Surge uma rã. “ Queres pôr-me às costas e ajudar-me a atravessar o rio?”, pergunta o escorpião. “ Não sou tola. Para me picares?”, responde a rã. “ De modo nenhum”, responde o escorpião. “Que interesse teria em picar-te? Afogar-nos-iamos ambos. Além disso, pagar-te-ei bem!” Convencida, a rã aceita pôr o escorpião às costas. Começa a nadar para a outra margem. Chegados a meio do trajeto, o escorpião pica a rã. “ Mas por que fizeste isso?”, pergunta a rã antes de morrer. “ Porque é próprio da minha natureza”, responde o escorpião. E afundam-se ambos.
François Jacob, O Ratinho, A Mosca e o Homem, Gradiva
Como nos recorda o filósofo Ortega y Gasset, cada homem é dotado de uma capacidade valorativa, de uma faculdade de estimar. Através desta faculdade, damos conta dos valores; e estes não são coisas que se vêem, "sentem-se". Por exemplo, a melodia de uma detrminada música. Mas as nossas valorações não são aleatórias, remetem para os diferentes critérios valorativos, situados no espaço e no tempo, isto é, num contexto social e cultural. Os critérios valorativos dão inteligibilidade às preferências e rejeições- escollhas- e facilitam o acesso ao sentido das nossas acções. E ajudam também a perceber os comportamentos e as atitudes dos outros.
Dia após dia, a glória da primavera rivaliza com a glória do sol.
As estradas que serpenteiam até à cidade na colina cheira a flores de amendoeira.
Quanto tempo até que os fios do coração, livre de cuidados,
Flutuem, como a alfazema, por longa distância.
Li Shang-yin, Chuva na Primavera e Outros Poemas, Assírio & Alvim, p. 23
Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
sophia de mello breyner andresen