A política é velha e grega. Resiste, renova-se e instala-se de novo no campo da Europa. E se a realidade falhar, resta-nos sempre a teoria.
(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.O tumulto interior de Hamlet é o tumulto do cidadão comum hoje. Todo o Príncipe -cada um de nós- encerra em si mesmo a crueza e a grandeza da sua época, e o abismo do Reino da Dinamarca é o abismo da Velha Europa. Reinos inquietos, como o Tempo. Como a leitura.
Ípsilon, sexta-feira, 11 de Maio de 2012.
Não procures uma multidão sincera
porque tal não existe.
Quando numerosos, os homens, os animais,
as plantas, as pedras e até as máquinas
perdem a higiene do raciocínio individual;
e, se abrem a janela que dá para o jardim,
é para cuspir, nunca para te dizer adeus.
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Caminho, pp 84-85
O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo.
Vergílio Ferreira
Sassetti diz-nos que tocar piano é um alimento para a alma, uma necessidade vital. Ouvi-lo também.
Gostaria de escrever um poema e não sei de quê.
Há em mim uma inquietação como se para nascer
um grande gesto, uma ideia, o visível do que se não vê.
Mas não nasce, não se vê, nasce apenas o prazer
desta vaga melancolia que em si mesma consiste
e tem o gosto de ser triste
sem o ser.
Vergílio Ferreira

(Cargador de Flores, Diego Rivera)
(...)
Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custisa! Que diabo!
E os cavadores descansam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.
Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!
(...)
Cesário Verde
[...]
E atirou a taça ao mar, do varandim rendilhado, por que ninguém mais,
bebendo por ela, viesse a conhecer os segredos daquele amor de balada,
feito de suspiros e raios de lua, perfumes de laranjeira e baques de
coração espezinhado.
A taça oscilou ligeiramente nas águas, fez umas reviravoltas antes de
seguir mar em fora, como uma gôndola deserta que procura o gondoleiro.
E o rei considerava em voz triste:"Quem mesmo velho poderá guardar-te
dia e noite, taça de amor por onde os meus lábios beberam os vinhos
generosos, por essas noites perladas dos ecos das serenadas, dos
perfumes festivais das rosas e da embriaguez dos profundos
amores?...Abandonaram-me os meus cavaleiros e não me queixo,
fugiram-me os cortesãos e estou tranquilo: só a ideia de te deixar me
atormenta, pois tu guardas inteira e palpitante a história do meu
coração.
[...]
Fialho de Almeida, in O País das Uvas
( Obrigada, Vasco Tomás)
Vitória de François Hollande em França.
A linguagem não serve apenas para expressar a realidade. Transforma-a.
Nos nossos dias, tudo parece estar prenhe do seu contrário. Sendo nós uma maquinaria dotada do maravilhoso poder de reduzir e fazer frutificar o trabalho humano, contemplamos a fome e a morte por excesso de trabalho. As fontes de riqueza da moda são convertidas, por uma estranha magia, em fontes de penúria. As vitórias da arte parecem ser compradas com a perda do carácter. Na mesma medida em que a humanidade domina a natureza, parece ter sido o homem escravizado por outros homens e pela sua própria infâmia.
(...) este antagonismo entre as forças produtivas e as relações sociais, na nossa época, é um facto palpável, esmagador, que não pode ser desmentido.
Karl Marx, The People`s Paper
19 de Abril de 1856
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen
1º de Maio de 2012. Portugal. Mais um ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Mais um rasgão neste país estilhaçado. Lutar por comida e não por direitos. Gestos que nos inscrevem no centro da Era do Vazio.
(...)
Só nos resta a maneira
mais pura:
de igual para igual
tão desconhecidos
José Tolentino de Mendonça
Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
sophia de mello breyner andresen