Folheava um manual antigo de Filosofia quando me deparei com este grande poema de Álvaro de Campos. Um exercício sobre a debilidade da espécie humana, força essencial do seu horizonte possível, e da procura permanente de nós.
Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
(...) Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
O novo filme de David Cronenberg, Cosmopolis, dá-nos o mundo em vinte e quatro horas. A narrativa passa-se em Manhattan, local de todas as "assimetrias", dentro de uma limusine onde Packer vive num ambiente claustrofóbico.
Através do vidro do carro- alusão ao mundo virtual- assistimos à desconstrução de um homem rico, um homem profundamente desamparado e sitiado na vertigem do capitalismo contemporâneo. Um filme onde as personagens se afirmam pelo rosto e pela palavra (à semelhança da Pólis grega), impelindo-as pelo discurso até à queda final. Entretanto, nesta viagem intempestiva, somos fustigados por temas que reconhecemos presentes na sociedade contemporânea: o individualismo, a violência quotidiana, a agressividade dos grandes espaços desumanizados, o progresso científico e técnico, a sociedade de consumo, a ausência de relações afectivas sólidas, a fantasia, a náusea de existir, a morte...
Apesar do filme provocar críticas "assimétricas", gostei muito e aconselho.
O Blog faz dois anos. Como lembra Saramago, cada dia traz sua alegria e sua pena, e também sua lição proveitosa.
O propósito da caminhada inventa-se em cada dia, acicatando a imaginação e espreitando as múltiplas interpretações do mundo circundante. Sempre em consonância com o imperativo de aproximação aos labirintos da razão.
Obrigada a todos os que visitam e comentam o Instante.
Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma verdade.
Erasmo, Elogio da Loucura
Para trocar ideias é preciso haver pensamento. É hora de fazer política.
A dança, arte do instante; a escultura, arte da eternidade.

O artista plástico Pedro Dantas retrata Vladimir Vasiliev e Ekaterina Maxinova.
Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
sophia de mello breyner andresen