Nas horas baças que pedem um novo renascer, volto-me na direcção do "sítio geográfico vital gravado nos cromossomas". Gesto que me faz sentir, repito-o, que as fragas são firmes, as árvores nascem, a lua é bela, os homens são promessas. "E sinto Paz".
Não sei se vês, como eu vejo.
Pacificado,
Cair a tarde
Serena
Sobre o vale,
Sobre o rio,
Sobre os montes
E sobre a quietação
Espraiada da cidade.
Nos teus olhos não há serenidade
Que o deixe entender.
Vibram na lassidão da claridade.
E o lírico poema que me acontecer
Virá toldado de melancolia,
Porque daqui a pouco toda a poesia
Vai anoitecer.
Miguel Torga
Chaves, 6 de Setembro de 1986
Uma borboleta no chão
Uma brisa suave
Um raio de sol
Suficientemente fino para te fazer estremecer
Suficientemente longo para te fazer feliz
Aqui descansamos, livres e vazios
Neste fim de estação
Neste abraço cálido e final de expansão
Os dedos são lírios que saem das mãos
Esguios, enigmáticos símbolos transfigurados
Planta, animal, estrela diurna
E o bafo quente que os envolve
Porque a vida é
Uma erva, uma explosão, um beijo, uma agonia
Um tempo que nos visita de raspão
E ainda assim
Persistimos na ternura das horas
No prazer de uma boca que se abre
No anoitecer dos cabelos em repouso
Ainda assim persistimos
Acordando todas as manhãs
E pela tarde
O riso volta de novo às sombras do verão
Pássaros incorpóreos dos sentidos
Logo empoleirados sobre estes corpos inclinados
Porque o tempo
Essa areia esquiva onde brincam os astros
Desdenha dos nossos esforços humanos
E volta sempre
Com o presságio daquela oculta maré primordial
Ainda uma vez mais
A palavra sobre as águas
Os sons ancestrais guardados na carne
Que despontam como trigo estival
Enquanto revelam o prefácio do nosso existir
José Ferreira
Estas letras são as aranhas inesgotáveis
Gosto de ler José Bragança de Miranda. O artigo que me ocupa, e que folheio, abre a polémica citando Maurice Maeterlinck (1980):
Talvez o ser humano venha a ser substituído por uma sombra, um reflexo projectado num écran, por formas simbólicas ou algum ser que terá a aparência da vida mas não terá vida.
José Bragança de Miranda trabalha a ideia, muito divulgada, do fim da história do mundo, também conhecida por pós-modernismo. Diz-nos, a modernidade sempre andou assombrada com o seu fim, daí a a busca incessante do novo. Já tudo terminou, a sociedade, a história, as ideologias e a família. Agora, chega ao fim o corpo. Destaca a radicalidade desta morte anunciada, uma vez que ela traz consigo alterações infindáveis, e escreve: O corpo é das categorias mais persistentes do pensamento ocidental. Depois da "morte de Deus" (Nietzsche), da "fuga dos Deuses" (Hölderlin), (...) era realmente estranho que o corpo permanecesse incólume.
A análise deste último capítulo da história tem como fim encontrar o que falta ao humano. Através duma abordagem aberta, que prioriza o essencial, o autor articula persistentemente os conceitos de corpo, carne - o que emerge com a crise do corpo é a carne - e intersubjectividade. Por último, apresenta a técnica como fio que lança o Homem no mundo virtual, conceito que Bragança de Miranda define, num outro contexto, como sendo o lugar de fragmentação de toda a totalidade, queda heteróclita de tudo, sem princípio nem fim. Um visor, um banquete de sombras reais do mundo.
Marx tem razão : Tudo o que é sólido se dissolve no ar. O corpo também?
Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
sophia de mello breyner andresen