Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012

Nas horas baças que pedem um novo renascer, volto-me na direcção do "sítio geográfico vital gravado nos cromossomas". Gesto que me faz sentir, repito-o, que as fragas são firmes, as árvores nascem, a lua é bela, os homens são promessas. "E sinto Paz".


Não sei se vês, como eu vejo.

Pacificado,

Cair a tarde

Serena

Sobre o vale,

Sobre o rio,

Sobre os montes

E sobre a quietação

Espraiada da cidade.

Nos teus olhos não há serenidade

Que o deixe entender.

Vibram na lassidão da claridade.

E o lírico poema que me acontecer

Virá toldado de melancolia,

Porque daqui a pouco toda a poesia

Vai anoitecer.

 

Miguel Torga

Chaves, 6 de Setembro de 1986



publicado por omeuinstante às 15:41 | link do post

Terça-feira, 6 de Novembro de 2012



publicado por omeuinstante às 21:00 | link do post

Uma borboleta no chão

Uma brisa suave
Um raio de sol
Suficientemente fino para te fazer estremecer
Suficientemente longo para te fazer feliz

 

Aqui descansamos, livres e vazios
Neste fim de estação
Neste abraço cálido e final de expansão
Os dedos são lírios que saem das mãos

Esguios, enigmáticos símbolos transfigurados

 

Planta, animal, estrela diurna
E o bafo quente que os envolve 
Porque a vida é
Uma erva, uma explosão, um beijo, uma agonia
Um tempo que nos visita de raspão

 

E ainda assim
Persistimos na ternura das horas 
No prazer de uma boca que se abre
No anoitecer dos cabelos em repouso
Ainda assim persistimos

 

Acordando todas as manhãs
E pela tarde
O riso volta de novo às sombras do verão
Pássaros incorpóreos dos sentidos
Logo empoleirados sobre estes corpos inclinados

 

Porque o tempo
Essa areia esquiva onde brincam os astros
Desdenha dos nossos esforços humanos
E volta sempre
Com o presságio daquela oculta maré primordial

 

Ainda uma vez mais 
A palavra sobre as águas
Os sons ancestrais guardados na carne
Que despontam como trigo estival
Enquanto revelam o prefácio do nosso existir

 

José Ferreira



publicado por omeuinstante às 17:55 | link do post

Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012
Canta, poeta, canta! 
Violenta o silêncio conformado. 
Cega com outra luz a luz do dia. 
Desassossega o mundo sossegado. 
Ensina a cada alma a sua rebeldia.

Miguel Torga 


publicado por omeuinstante às 22:02 | link do post

Estas letras são as aranhas inesgotáveis

do sonho. Vejo-as tecerem a teia onde entro,
e me deixo apanhar pelas leis do verso. Como
se entre mim e elas não estivessem as flores,
com as suas pétalas seguras pelo fio
que se soltou da primavera. Às vezes, queria
deixar estas páginas, e entrar pela porta
da vida; mas sei que continua fechada,
atrás de mim, enquanto não chego ao fim
do livro. Como se o fim não fosse o princípio,
e tudo recomeçasse, na teia do poema.
Nuno Júdice 


publicado por omeuinstante às 10:00 | link do post

Sábado, 3 de Novembro de 2012

Gosto de ler José Bragança de Miranda. O artigo que me ocupa, e que folheio, abre a polémica citando Maurice Maeterlinck (1980):

Talvez o ser humano venha a ser substituído por uma sombra, um reflexo projectado num écran, por formas simbólicas ou algum ser que terá a aparência da vida mas não terá vida.

José Bragança de Miranda trabalha a ideia, muito divulgada, do fim da história do mundo, também conhecida por pós-modernismo. Diz-nos, a modernidade sempre andou assombrada com o seu fim, daí a a busca incessante do novo. Já tudo terminou, a sociedade, a história, as ideologias e a família. Agora, chega ao fim o corpo. Destaca a radicalidade desta morte anunciada, uma vez que ela traz consigo alterações infindáveis, e escreve: O corpo é das categorias mais persistentes do pensamento ocidental. Depois da "morte de Deus" (Nietzsche), da "fuga dos Deuses" (Hölderlin), (...) era realmente estranho que o corpo permanecesse incólume.
A análise deste último capítulo da história tem como fim encontrar o que falta ao humano. Através duma abordagem aberta, que prioriza o essencial, o autor articula persistentemente os conceitos de corpo, carne - o que emerge com a crise do corpo é a carne - e intersubjectividade. Por último, apresenta a técnica como fio que lança o Homem no mundo virtual, conceito que Bragança de Miranda define, num outro contexto, como sendo o lugar de fragmentação de toda a totalidade, queda heteróclita de tudo, sem princípio nem fim. Um visor, um banquete de sombras reais do mundo.

Marx tem razão : Tudo o que é sólido se dissolve no ar. O corpo também?
 



publicado por omeuinstante às 17:26 | link do post

443245.jpeg
Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
links
posts recentes

Procida

A Sociedade do Cansaço

Ficções do interlúdio

As Noites Afluentes

A Árvore Dos Tamancos

Futuros Distópicos

Fragmento do Homem

No espaço vazio do tempo ...

A Nova Ignorância

Dia das Mulheres

Junho 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

17
18
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


tags

arte

cinema

david mourão-ferreira

educação

estética

eugénio de andrade

fernando pessoa

filosofia

fragmentos

leituras

literatura

livros

miguel torga

música

noctua

pintura

poesia

política

quotidiano

sophia de mello breyner andresen

todas as tags

arquivos

Junho 2019

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Janeiro 2018

Outubro 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

blogs SAPO