Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013


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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

 

 

 

 

Não, não é. Um cachimbo desenhado não é um cachimbo. Não é possível enchê-lo de tabaco e fumá-lo, apesar de sabermos reproduzir as sensações.
Mas vemos um cachimbo. 

 

Através dos sentidos construímos uma imagem representativa da realidade, mas não a realidade. A ilusão dos sentidos é a nossa ilusão. 
 



publicado por omeuinstante às 23:23 | link do post

Domingo, 20 de Janeiro de 2013

 

dia perfeito para desenhar o sono

ao som das árvores despertas

vibrações em signos olham

ondulações incompletas. enquanto o sol dormente

procura a distância

na fúria do silêncio.

 

mar suspenso vagueia pelas margens

sacode a ventosa clareira

mas intacto é o dia

espuma branca. enquanto o sol dormente

adivinha as palavras simples.


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publicado por omeuinstante às 18:46 | link do post

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

 

Quero que tudo seja unívoco e tangível.

Procuro que todas as coisas possuam o rumor da eficácia

e confluam num único momento de plural sinergia

para a exortação, a exaltação, o extremo.

 

Quero que tudo seja decisivo e incontornável como uma árvore.

Procuro que tudo siga o fluxo da imortalidade

e habite a única vontade possível,

a vontade dos homens.

 

Quero que tudo seja inexorável e autêntico.

Procuro que tudo se firme na infinidade,

a música e o triunfo,

a rebeldia e a luz.

 

Quero que tudo seja abrangente e divino.

Procuro que tudo seja simultaneamente plausível

e impossível, mais do que esperança, paixão,

mais que paixão, amor.


Amadeu Baptista, O Bosque Cintilante, Maia, Cosmoroama, 2008


publicado por omeuinstante às 21:27 | link do post

 

Deus escreve direito por linhas tortas

E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
 

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós



publicado por omeuinstante às 12:41 | link do post

Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

Mantinha um fascínio indeciso

uma impressão capaz de proteger

tanto a ordem como a rebeldia

sozinha perante pedidos

agitações e escombros

desligada há muito de motivos

 

José Tolentino Mendonça, Baldios, Assírio & Alvim, pág. 72



publicado por omeuinstante às 22:06 | link do post

Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013



Aqui



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Domingo, 13 de Janeiro de 2013


O homem se via envelhecer, sem protesto contra o tempo. Ansiava, sim, que a morte chegasse. Que chegasse tão sorrateira e morna como lhe surgiram as mulheres da sua vida. Nessa espera não havia amargura. Ele se perguntava: de que valia ter vivido tão bons momentos se já não se lembrava deles, nem a memória de sua existência lhe pertencia? Em hora de balanço: nunca tivera nada de que fosse dono, nunca houve de quem fosse cativo. Só ele teve o que não tinha posse: saudade, fome, amores.
Como a morte tardasse, decidiu meter-se na estrada e caminhar ao seu encontro. Tomou a direcção do oeste. Na sombra desse ponto cardeal, todos sabemos se encontra a moradia da morte.
Iniciou a sua excursão rumo ao poente sem que de ninguém se despedisse. Os adeuses são assunto dos vivos e ele se queria já na outra vertente do tempo. Caminhava há semanas quando avistou um homem alto, um rosto de enevoados traços. Trazia pela trela um bicho estranho, entre cão e hiena. Animal mal-aparentado, com ar maleitoso.
- Esta é a morte - disse o homem apontando o cão. E acrescentou - Sou eu que a passeio pelo mundo.
- E você quem é?
- Eu sou o Tempo.
E explicou que caminhavam assim, atrelados um ao outro, desde sempre. Ultimamente, porém, a Morte andava esmorecida, quase desqualificada. Razão de que, entre os vivantes, se desfalecia agora a molhos vistos, por dá cá nenhuma palha. Morria-se mesmo sem intervenção dela, da Morte.
O velho, desiludido, explicou ao Tempo a razão da sua viagem. Ele vinha ao encontro da Morte:
- Eu queria que ela me levasse para o sem retorno.
- Vai ser difícil.
- Lhe imploro: fiz todo este caminho para ela me levar.
- Veja como ela anda: desmotivada, focinho pelo chão.
- Mas eu queria tanto terminar-me!
Impossível, insistiu o Tempo. E para comprovar, soltou o animal. O bicho se afastou, arrastado e agónico, para o fundo de uma valeta. Ali se enroscou decadente como um pano gasto. O velho se condoeu e perguntou ao bicho:
- O que posso fazer por si?
- Eu só quero beber.
Não era de água a sua sede. Queria palavras. Não dessas de uso e abuso nas palavras tenras como o capim depois da chuva. Essas de reacender crenças. O velho prometeu garimpar entre todos os seus vocabulários e encontrar lá os materiais de reacender o mais perdido fôlego. Urdia, seu secreto plano: iria ao sonho e de lá retiraria uma paixão de palavras.
Na manhã seguinte, foi de encontro à besta moribunda. O bicho estava agora mais hiena que cão. Uma baba amarela lhe escorria pelo focinho. Apenas revirou os olhos quando sentiu o homem se aproximar.
- Trouxe?
E ele lhe entregou o sonho, as palavras, mais seu inebriamento. O animal sugou tudo aquilo com voracidade. Seus olhos eram os de uma criança sorvendo estória antes do sono.
E assim se seguiram durante umas manhãs. Em cada uma, o velho se anichava e confiava seus elixires. De cada vez, o bicho se animava mais um pouco. No final, a Morte se recompôs com tais pujanças que o velho ganhou coragem e lhe apresentou o pedido, seu anseio de que o mundo se lhe fechasse. A Morte escutou o pedido de olhos fechados.
- Amanhã vou cumprir o meu mandato - anunciou ela.
Nessa noite, o velho nem dormiu, posto perante a sua última noite. Sentindo-se derradeiras, passou em revista a sua vida. Nos últimos anos, ele tinha perdido a inteira memória. Mas agora, naquela noite, lhe revieram os momentos de felicidade, toda a sua existência se lhe desfilou. e sentiu saudade, melancolia por não poder revisitar amigos, terras e mulheres. até lhe assaltou a ideia de escapar dali e reganhar aventuras no caminho da vida. Para não ser atacado por mais recordações - com o risco do arrependimento - ele foi ao rio e caminhou ao sabor da corrente. Andar no sentido da água é o modo melhor para nos lavarmos das lembranças.
No dia seguinte, o velho foi à valeta onde encontrou a Morte. Ela estava cansada, respiração ofegante. E disse:
- Já matei.
- Matou? Matou quem?
- Matei o Tempo!
E apontou o corpo desfalecido do homem alto. A hiena, então, estendeu a trela ao velho e lhe ordenou:
- Agora leva-me tu a passear!


Mia Couto
In "Na Berma de Nenhuma Estrada"
 

(página fb)


 



publicado por omeuinstante às 18:00 | link do post

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

 

Estado de Excepção, o novo espectáculo do coreógrafo Rui Horta, é um trabalho multidisciplinar de dança, teatro e música. No mundo em crise, a perda dos direitos sociais passará de excepção a regra? Questionação em jeito de elogio à poética do fracasso e do fracasso olhado como sucesso.

O mundo deu uma volta sobre si próprio e nada será como dantes. Girou depressa demais e agora estamos a tentar processar o passado para podermos repensar o futuro. Andamos sobre vidros?  Nunca deixámos de andar sobre vidros, só que agora estamos descalços. 

 


 



publicado por omeuinstante às 18:00 | link do post



É no 4.º episódio de As Bacantes que surge o tema da loucura. Ao longo desta cena de enlouquecimento de Penteu, há um jogo dialéctico persistente entre ser e parecer, ver e não ver. Eurípedes apresenta Penteu vestido de ménade e sob os efeitos do delírio dionisíaco que, disfarçado de sacerdote, o irá ridicularizar.

Penteu, tomado de estranha perturbação dos sentidos e com uma sensação patológica de força, julga poder transpor às costas o Citéron. No final do episódio, e neste estado de delírio, Diónisos conduz o rei para as montanhas, onde será morto e dilacerado pelas Bacantes que tão ardentemente deseja observar.
Um diálogo de forte ironia trágica e onde as palavras estão carregadas de duplo sentido.
O episódio tem dado motivo a diversas análises e interpretações psicanalíticas, uma vez que Penteu se disfarça de ménade/bacante/mulher com o propósito de as espiar. Espiar as Bacantes constituía profanação dos mistérios e delito que a pólis grega punia com a morte.

A força da tragédia: a mudança de Penteu de caçador em caçado. 


(a partir da leitura do artigo de José Ribeiro Ferreira em "As Bacantes e o Nascimento da Tragédia")

Dioniso

Tu, que de ver o que não deves tão desejoso estás,

e o que é vedado te é solicitas, a ti falo, ó Penteu,

sai do palácio e oferece-te a meus olhos,

envergando uma veste de mulher, de Ménade, de Bacante,

tu, o espia de tua mãe e suas sectárias...

 

(Entra Penteu, vestido de Bacante e com o tirso na mão.)

 

Uma das filhas de Cadmo nas feições me pareces

 

Penteu

Eu estou em crer que vejo dois sóis...

E vejo Tebas, a cidade das sete portas, a dobrar...

A ti, que me conduzes, um touro eu te creio,

e na tua cabeça despontaram chifres...

Já eras dantes uma fera! Em touro te tornastes!

 (...)



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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013


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Domingo, 6 de Janeiro de 2013

Fim de tarde na Foz. Um bem perfeito.

 


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publicado por omeuinstante às 17:43 | link do post

Artigo de Gonçalo M. Tavares

A bondade salva cada vez menos, e isso assusta. No mundo de paisagem técnica em que os elementos naturais estão escondidos - quase já não há montanha, nem terra - cada vez mais, salva quem sabe onde ligar ou desligar a electricidade; aquele que sabe mexer nos comandos da casa das máquinas. 

 



Aqui



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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

Acabo de ler, no Jl, o artigo de João Lobo Antunes sobre a evolução da Medicina Narrativa. Uma lição. Através duma escrita limpidamente emocional, acedemos à Nova Medicina que tem como centro o olhar sobre a vulnerabilidade humana. Acompanhando a narrativa da doença compreendemos a urgência em ver para lá das aparências e das máscaras dos sintomas. 

Um artigo que salienta a necessidade de elevar o diálogo clínico àquela altitude que permite o olhar horizontal, olhos nos olhos, entre o médico e o doente. Da sua experiência cúmplice, retiramos o princípio: quanto mais vulnerável mais humano. Lembrando Camus, Lobo Antunes refere que a virtude da compaixão nasce quando falamos ao Outro com a voz com que falamos a nós própios.

Para contar e ouvir. 



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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

O Museu Gulbenkian apresenta uma exposição centrada nas representações físicas e simbólicas do Mar ao longo de quatro séculos (séculos XVI-XX). Percorrendo os seis núcleos - A Idade dos Mitos; A Idade do Poder; A Idade do Trabalho; A Idade das Tormentas; A Idade Efémera; A Idade Infinita - observamos a diversidade de cores em que o mar se mostra na pintura ocidental. A não perder.



José Malhoa (1855-1933). "Praia das Maçãs". 1918. Óleo sobre painel de madeira.



publicado por omeuinstante às 18:08 | link do post

Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013

O prazer pode apoiar-se sobre a ilusão, mas a felicidade repousa sobre a realidade.


Sébastien-Roch Chamfort



publicado por omeuinstante às 17:57 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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