Quinta-feira, 26.07.12

É incontornável. A questão da temporalidade da leitura de um texto obriga a atenção a dirigir-se para a distinção barthesiana entre textos de prazer e textos de gozo. Os textos de prazer, os clássicos, abrem-se ao entendimento do leitor sem sobressaltos; os textos de gozo, modernos, forçam a captação da sua inteligibilidade sob pena de fazer cair o leitor numa lentidão irreversível. 

O que é que confere, então, rapidez à leitura? O que é que sistematiza a legibilidade? Roland Barthes diz que não há critérios objectivos para definir as práticas textuais, uma vez que só o próprio texto baliza o gozo do tempo de mergulho e a sua fenda. E depois, há sempre os livros que oferecem resistência.

Ser legível é um modelo clássico vindo da escola: ser legível é ser lido na escola.

 


 




publicado por omeuinstante às 19:00 | link do post

Segunda-feira, 14.05.12
Haruki Murakami é um escritor japonês e autor do livro Kafka à Beira-Mar. Este grande contador de histórias narra, neste romance, as peripécias de dois homens que procuram o destino entre dois mundos paralelos: o real e a fantasia. O próprio autor explica que os homens têm necessidade de ilusão nas suas vidas para alcançarem uma vida normal, e que a ilusão existe mesmo. Existe?

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que estádentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.

 (...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros. 

E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido. 

Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar


publicado por omeuinstante às 20:09 | link do post

O tumulto interior de Hamlet é o tumulto do cidadão comum hoje. Todo o Príncipe -cada um de nós- encerra em si mesmo a crueza e a grandeza da sua época, e o abismo do Reino da Dinamarca é o abismo da Velha Europa. Reinos inquietos, como o Tempo. Como a leitura.

 

Ípsilon, sexta-feira, 11 de Maio de 2012.
 



publicado por omeuinstante às 11:46 | link do post

Não procures uma multidão sincera

porque tal não existe.
Quando numerosos, os homens, os animais,

as plantas, as pedras e até as máquinas

perdem a higiene do raciocínio individual;

e, se abrem a janela que dá para o jardim,

é para cuspir, nunca para te dizer adeus.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Caminho, pp 84-85 



publicado por omeuinstante às 09:00 | link do post

Domingo, 13.05.12

O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo.


Vergílio Ferreira

 



publicado por omeuinstante às 22:46 | link do post

Terça-feira, 17.04.12

A vida?

Gotas de luar 


Gotas caídas 


De gerânios a abanar.

 

 



K. Dogen, líder espiritual budista japonês.



publicado por omeuinstante às 09:23 | link do post

Sexta-feira, 06.04.12

As coisas são como são. A vida, um fluxo permanente. Sem captação.

Daí, hoje, concordar com Philip Roth, não há ninguém menos passível de ser salvo do que um sujeito bem destroçado.


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publicado por omeuinstante às 12:06 | link do post

Quarta-feira, 21.03.12

Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão; tranquilidade e inconstância; pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer...
Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca.

 

Clarice Lispector



publicado por omeuinstante às 12:20 | link do post

Segunda-feira, 05.03.12

Sobre o paradoxo do elemento religioso no mundo contemporâneo:


(...) O homem a-religioso no estado puro é um fenómeno muito raro, mesmo na mais dessacralizada das sociedades modernas. A maioria dos "sem-religião" ainda se comporta religiosamente, se bem que não esteja consciente deste facto.

Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano 



publicado por omeuinstante às 23:47 | link do post

Quinta-feira, 01.03.12

A realidade é concebida ao mesmo tempo que o olhar.

Goethe



publicado por omeuinstante às 19:16 | link do post

Nos nossos dias, arte
radical significa arte sombria,
negra como a cor fundamental
Theodor W. Adorno

 

 

 



publicado por omeuinstante às 12:12 | link do post

Terça-feira, 28.02.12

A poesia como atitude de religação essencial.

 

Sim, a poesia pode salvar o homem.

 Czeslaw Milosw, O livro dos Saberes, p. 283



publicado por omeuinstante às 18:39 | link do post

Sábado, 25.02.12

o meu maior desejo
sempre foi
o de aumentar a noite
para a conseguir
encher de sonhos

Virgínia Woolf



publicado por omeuinstante às 15:23 | link do post

Terça-feira, 14.02.12

O filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955) escreveu, sem fingimento, que o Homem é um equilíbrio instável.

Sou uma parte de tudo aquilo que encontrei.




publicado por omeuinstante às 16:25 | link do post

Segunda-feira, 13.02.12

Bernardo Soares, Livro do Desassossego:

Não vejo, sem pensar.



publicado por omeuinstante às 10:53 | link do post

Domingo, 12.02.12

 A sociedade humana necessita de paz, mas necessita igualmente de conflitos sérios e de ideais: de valores, de ideias pelos quais possamos lutar. Na sociedade ocidental aprendemos- e aprendemos com os gregos- que é possível fazê-lo não tanto com a espada, mas muito melhor e mais persistentemente com palavras. E, sobretudo, com argumentos razoáveis.

Uma sociedade perfeita é, por conseguinte, impossível. Existem, porém, ordens sociais melhores e piores. A nossa civilização ocidental decidiu-se a favor da democracia, como uma forma de sociedade que pode ser alterada pela palavra e, aqui e ali- se bem que raramente- por argumentos racionais, por uma crítica racional, isto é, realista- através de reflexões críticas não-pessoais, características também da ciência, designadamente da ciência da natureza, desde os gregos. Sou, pois, um defensor da civilização ocidental, da ciência e da democracia. Elas dão-nos a oportunidade de prevenir o infortúnio evitável e de experimentar, de apreciar criticamente e, se necessário, aperfeiçoar as reformas (...). E confesso-me igualmente partidário da ciência, hoje tantas vezes caluniada, que busca a verdade através da auto-crítica e que, a cada nova descoberta, descobre de novo quão pouco nós sabemos- quão infinitamente grande é a nossa ignorância e falibilidade. Foram intelectualmente humildes. (...).


Karl Popper, Em Busca de Um Mundo Melhor



publicado por omeuinstante às 19:15 | link do post

Terça-feira, 07.02.12

aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão Ferreira, À Guitarra e à Viola
(1954-1960)



publicado por omeuinstante às 17:21 | link do post

Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem.
Sartre



publicado por omeuinstante às 10:20 | link do post

Domingo, 05.02.12

...No fim tu hás- de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro de poemas, o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

 Mário Quintana



publicado por omeuinstante às 17:20 | link do post

 

A cultura é a soma de todas as formas de arte, amor e pensamento que, ao longo dos séculos, permitiram ao homem ser menos escravizado.

 

Malraux


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publicado por omeuinstante às 16:50 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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