Sexta-feira, 26.04.13

 


Em O Amigo, Agamben apresenta-nos o heteros autos como alteridade imanente na mesmidade e define a amizade nos limites da con-partilha. Não há na amizade nenhuma relação entre sujeitos: é o próprio ser que é dividido, que não é idêntico a si, e o eu e o amigo são as duas faces - ou antes os dois pólos - desta con-partilha. Tendo como pré-texto um trecho da Ética Nicomaqueia de Aristóteles e depois de termos sido convidados a fazer a leitura em conjunto, Agamben discursa sobre a relação humana da amizade e sobre as bases ontológicas e políticas em que se auto-sustenta.


A amizade é a instância desse con-sentimento da existência do amigo no sentimento da sua própria existência.





publicado por omeuinstante às 20:09 | link do post

Quinta-feira, 22.03.12

 

Um homem que tem como "loucura" a "leveza", oferece, em palavras, a âncora da amizade. Há mais de vinte anos, encontramo-nos na borda do cais, pedra que nos fixa ao topo, e, em cada partida, renovamos o tempo da esperança.
Falo do Nuno, e vejo-o, através do seu belo "Auto-retrato". 

 

 

Sou,

mas a minha paixão é aquilo

que não sou

se pelo ser rastejo sinuoso no pó

dorso horizontal de réptil

pelo não ser o meu corpo de águia

anseia pela carícia das estrelas

e as neves sempre renovadas

de inauditos himalaias

se o peso é o meu destino

a leveza é a minha loucura

a minha doença são os cais

se fico gostaria de não ficar

ir nos comboios que partem e nos 

outros que faço partir

que itinerário o do meu sonho?

viagem a uma geografia interior e arenosa

ao espaço exacto entre o cais e a partida

que os dedos azuis do sonho esboçam e anulam

quem sou eu?

que labirinto percorre o meu desejo?

hei-de perguntar ao vento.

 

Nuno Pinto



publicado por omeuinstante às 13:10 | link do post

Terça-feira, 22.06.10

Como nos ensina Platão, a amizade é o cultivo do belo, da sabedoria e até do divino. É um dinamismo que nos aproxima e fixa em algumas pessoas. Em outras não. É um itinerário iniciático e dialéctico, conduzido pela mão de Diotima.

Os encontros com a minha amiga Olga Rocha desafiam-me e inquietam-me, mesmo que tenham a duração de um instante.

Esse lado breve mas imutável das relações representa, para mim, um tempo certo e uma escala de valoração, provando que nem tudo se dissolve no ar.

 

Foi então que apareceu a raposa.

- Olá, bom dia! - disse a raposa

- Olá bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.

- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.

- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...

- Sou uma raposa - disse a raposa.

- Anda brincar comigo - pediu - lhe o principezinho. - Estou tão triste...

- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...

- Ah! Então desculpa! - Disse o principezinho.

Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:

- O que é que "estar preso" quer dizer?

- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?

- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que "estar preso" quer dizer?

- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?

- Não - disse o principezinho. -  Ando à procura de amigos. O que é que "estar preso" quer dizer?

- É uma coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.

- Laços?

- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, também passo a ser única no mundo...

- Parece que estou a começar a perceber - disse o principezinho.  - Sabes, há uma certa flor...tenho impressão que estou preso a ela...

(...).

 

Antoine de Saint - Exupéry, O Principezinho

 

Há laços que perduram.



publicado por omeuinstante às 13:57 | link do post

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Sem a música, a vida seria um erro. Nietzsche
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